PPES_01_BTV - Capítulo 05– O Bem-Te-Vi do Paraíso
Capítulo 05 – O Bem-Te-Vi do Paraíso
Digamos que ainda sem ar e tomado pelo fascínio, Yan pensou: “Uma árvore de ouro puro, toda só para mim? O que vou fazer com tanto ouro? Dá pra pagar o resgate dos meus irmãos e fugir com eles para uma cidade distante”.
Rodeando a árvore lentamente, admirado pela sua beleza e ricos detalhes da textura de sua casca e considerando a imensa criatividade do artífice que a esculpiu de modo que nenhum galho era igual ao outro, perguntou-se: “Por que não tem folhas? Por que motivo, razão ou circunstância o artista que a esculpiu a fez assim, atribuindo valor colossal à uma árvore aparentemente velha, retorcida, sem folhas e sem vida? E olha os seus galhos! E imagine seu peso! Como a esculpiram aqui? E se foi difícil para mim encontrá-la, será que não houve mais ninguém antes de mim que tenha vindo aqui? Possivelmente ninguém nunca a encontrou antes, se não teriam-na garimpado por inteiro, inclusive cavariam a terra para remover suas raízes. Não vou levar nada mais do que alguns galhos, se não nem eu mesmo vou conseguir carrega-los.”
Então inclinou-se para quebrar uma ponta fina de seus emaranhados galhos, quando o Bem-Te-Vi do Paraíso lhe surpreendeu tamanha exuberância, pousando em um dos galhos à sua frente e seu esplendor era tal que com ele vieram vários seres de luz, de diversos tipos e formas, ocultando-se e revelando-se por entre as longas plumas de sua cauda.
O Bem-Te-Vi do Paraíso fixou seus olhos nos olhos fitos de Yan e os olhos de Yan não desgrudaram da ave, que de tão coloria e sobrenatural, lamentou-se Yan por não ter uma gaiola para aprisionar o pássaro.
Ciente do instinto de Yan em lhe aprisionar, como se tivesse o poder telepata de ler mentes, pôs-se a falar:
- Não me detenhas, pois eu tenho mais valor livre podendo retornar ao Paraíso do que sendo exibida pelo mundo em uma gaiola.
Yan gelou de medo. Uma ave mágica, falante, poderosa e hipnotizante.
- Sua demanda foi tida por nobre e justa perante a espiritualidade e o Divino. Eu sou o Bem-Te-Vi do Paraíso, mensageiro das esferas excelsas. Há muitos séculos houve um justo e sábio rei que governou com sabedoria estas terras. Era um homem valente e corajoso, hábil na guerra e que fazia questão de ir à frente das suas batalhas e que devido à sua nobreza, foi presenteado com uma espada mágica, pois com seu trabalho e zelo, sendo ele forasteiro, transformou um povoado altamente dividido numa cooperativa de exploradores de minerais e pedras preciosas que estes montes calcáreos, rochosos, quebradiços e estéreis em seus interiores escondiam.
Continuou o pássaro:
- Com sua atitude de compartilhar com os herdeiros destas terras as riquezas que eles não sabiam desfrutar e principalmente pelo fato de acabar com o derramamento de sangue que havia entre as famílias detentoras destas terras, os pais de família se reuniram e decidiram em secreto presentear o rei que até então era só um peregrino, e exaltá-lo como rei da região, forjando para ele uma espada e uma armadura de ouro. Tomado de inveja por observar a gigantesca mudança que sucedera a este reino, um rei adversário treinou uma pequena tropa e intentou saquear o novo reinado para tomar-lhe as riquezas, mas o peregrino ungido rei tomou a frente da batalha e derrotou praticamente sozinho o seu inimigo. De batalha em batalha, e com sucessivas vitórias, mais o coração do rei adversário enchia-se de ira e ardente desejo de não só tomar-lhes as riquezas como agora passou a desejar a espada do justo rei, pois só podia estar nela o segredo do seu sucesso.
E a história não para por aí:
- Então o rei adversário enviou secretários para que viajassem pelo mundo e trouxessem guerreiros renomados e habilidosos para que pelo menos um deles vencesse o aclamado rei. Vários vieram de longe. Cada um com características totalmente distintas uns dos outros, armas as mais diferentes possíveis, armaduras feitas dos mais diversos materiais e a cada um que chegava, suspirava o rei adversário de alívio ou esperança, ao acreditar que teria uma chance. Um após o outro, nenhum guerreiro sobreviveu aos duelos com o justo rei, com exceção de um mercenário guerreiro ninja, a quem o rei já tinha desistido de ordená-lo ao combate e passara a considera-lo um verdadeiro covarde e já nem o incomodava.
O Bem-Te-Vi continuou:
- Este ninja na verdade estivera estudando seu inimigo, pois sua profissão era ser um matador da elite política de um povo milenar e muito mais numeroso e perigoso, em verdadeiras metrópoles de conglomerados habitacionais de casas e edifícios amontoados uns contra os outros, através dos quais era impossível penetrar e matar alguém sem deixar rastros, vestígios e/ou o olhar fotográfico de alguma pessoa que certamente levaria os que atualmente são chamados de investigadores a encontrar o assassino e prendê-lo. O apelido desse ninja era Sinistro. Ele matava homens que lideravam rebeliões locais ou aqueles que se apresentassem como um risco à perpetuação do seu governante. Ele sempre só tinha uma única chance e cumpriu devidamente todas as suas missões. Seu lema era sentar e observar.
- O guerreiro ninja percebeu que a habilidade e invencibilidade do rei portador da espada mágica não estavam nele propriamente dito, como se fosse resultado de muito treinamento, e sim em algum poder de encantamento que havia sobre a espada. Ela era o segredo. Tendo chegado à esta conclusão, dirigiu-se ao rei adversário que o contratou e o incitou à mais uma batalha. Ouviu da parte dele que já não havia mais homens para lutar que ele considerava o ninja um tremendo covarde e vacilão. Irado com as palavras deste rei, o ninja pegou um disco de arado que estava pendurada na parede, ao seu lado, na sala real, e o atirou contra a corrente que sustentava no teto um grande e pesado lustre de ferro com velas de sebo de carneiro, o qual despencou do teto sobre o rei, prensando-o contra seu trono, imobilizado pelo peso do lustre. O ninja retirou a espada que o rei trazia em sua bainha e cortou sutilmente seu pescoço, de modo a fazê-lo sangrar e lambeu seu sangue, dizendo: “Eu poderia te matar agora se eu quisesse, mas eu não vou manchar a minha honra de assassino derramando o sangue de alguém tão porqueira quanto você. Já tive inúmeras oportunidades de te matar mas isso só despertaria o revés desses homens fracos que te servem e eu matar a todos eles, deixando um monte de mulheres tristes, crianças chorando e eu voltaria para minha terra sem honra, principalmente se eu voltar para o meu reino sem cumprir minha missão.”
- Antes de atacar ao justo rei, Sinistro combinou com os homens que distraíssem o justo rei. Batalha travada, espadas e facões se confrontando, o som do aço tilintando nos ares, a porrada comendo solta, homens sendo feridos em pleno sol do meio dia, alguns perdendo as mãos, outros perdendo os pés, outros ainda perdendo suas cabeças, e o justo rei foi distraído por alguns soldados do rei adversário que usaram armas entalhadas de madeira, pois este material era um pouco mais resistente à magia da espada. O ninja atravessou o campo de batalha depois de algumas horas de combate. Ambos exércitos estavam cansados da luta. Mirou seus olhos no rei, observando pelo menos três guerreiros que o cercavam. Aproximou-se e adiantou-se à situação finalística. Esperou o momento certo de atacar. Percebeu chances de matar o justo rei mas os guerreiros de seu exército diminuíram sua capacidade de êxito.
- Já cansado de tentar e impedido pelos guerreiros das armas de madeira, o ninja entrou na roda da luta, sem armas em punho. Utilizando-se da espada de madeira de um para se desviar do golpe da espada do rei, esquivando-se dos golpes dos outros para não ser atingido e, bailando nessa dança de auto-defesa, inserido em uma acirrada disputa de três contra um, abraçou o rei por trás, segurando as costas da mão que segurava a espada com uma mão e as costas da mão que segurava o escudo com a outra, passando a dominá-las e trazendo para a frente superior do rei o seu escudo, para defende-lo pois foi preciso. Sem nem mesmo que os sufocantes percebessem, o ninja dominou os movimentos do rei, mas esperava o momento ideal. Ao perceber que o rei ia desferir um golpe com a espada mágica, pensou ser essa a hora. Então contorceu a mão do rei, virando a ponta da lâmina da espada contra seu corpo, encravando-a no estômago do rei, na junta das peças da armadura, uma das únicas brechas que sujeitariam o rei a um golpe em seus órgãos vitais.
- Percebendo a dor da fincada na barriga do rei, o ninja projetou seu peso sobre ele, fazendo suas pernas sobrar e sujeitando-o a uma posição indefesa. Tomando o escudo da mão do rei, deu a volta em torno de sua estrutura e afastou os guerreiros das armas de madeira, impedindo-os de se manterem em batalha, fazendo-os parar, largou o escudo no chão e exibiu para eles a espada encravada na barriga do rei.
- Para garantir que não sobreviveria, o ninja ergueu o rei e, segurando o punho da espada mágica, empurrou-o vários passos para trás, arrastando-o a passos apressados e atrapalhados até este pé de maçã, cravando o rei com a espada na árvore, sem conseguir desencravá-la depois. Em pouco tempo o clima da batalha esfriou. A percepção visual de que seu ditoso rei havia sido morto e que a imbatível espada não era mais vista frenética arrancando os membros e cabeças dos inimigos, os soldados súditos baixaram suas armas e as lançaram no chão: um sinal do consciente coletivo de que se seu rei havia expirado já não havia mais esperança, era melhor se render e entregar os pontos.
- A noite caiu e paulatinamente os soldados retiraram-se do campo de batalha, não sem antes observar uns rostos, identificar amigos, primos e irmãos mortos na peleja e tomarem posse de armas e instrumentos que, nas mãos de corpos inanimados ou somente largados sobre o solo nem para fertilizante teriam utilidade. O ninja ficou de pé ao lado do corpo do rei e esperou todos saírem. Sentindo que seu corpo estava frio, fechou seus olhos e tentou em vão retirar a espada do pé-de-maçã. Desistiu e determinou para si mesmo que retornaria em silêncio e invisível para sua terra natal satisfeito por ter cumprido a mais desafiadora missão de sua vida e relembrou dos outros dezesseis assassinatos que cometeu, em todos eles vitorioso devido à obediência ao primeiro ensinamento que recebera de seu mestre em sua primeira aula de artes marciais, do início de seu treinamento para ser um matador de elite, apenas com nove anos de idade: observar e esperar o momento certo. Pois como costumava aumentar o ditado de seu mestre, dizia: “Para todas as coisas debaixo do sol haverá seu respectivo e determinado momento de acontecer, basta estar de prontidão, vigilante para perceber se este tão exato momento está dando sinais de que está prestes a acontecer. E o atentado terrorista tem que ser exato, letal, silencioso, sinistro e misterioso de tal modo que desistam de tentar juntar as peças do quebra-cabeça para compreendê-lo”.
- Mas o que você não sabe, amado Yan, é que o Deus Altíssimo ungiu a espada do justo rei com porções do seu Espírito, dando-lhe vida, desejos, intenções, reflexos e ações. O poder de Deus na espada era tão tremendo que Ele decidiu retornar às elevadas esferas da espiritualidade e penetrou na árvore e entrou em mim, que muito por acaso escolhi este pé para dormir e pernoitar aqui sozinho. Ao entrar em mim, deu-me instantaneamente penas coloridas e a companhia de diversos seres mágicos para habitar em mim. Eles vão onde eu vou e fazem de tudo por mim, nem preciso pedir. Quando eu desejo, eles se movem voluntariamente para esquematizar o que fazer e onde ir para que eu alcance naturalmente meus objetivos. Tenho livre acesso ao Paraíso, sou eterna e imortal.
- A árvore também virou abençoada e absorveu o ouro da armadura do rei, tornou-se uma grande estátua de ouro aos olhos de qualquer um, como se fosse infértil e improdutiva. Mas sempre que necessário eu desço do Paraíso e, ao pousar nela, confiro-lha vida e durante algumas horas, durante a noite, eu a faço voltar a viver, lançando novas folhas, flores e frutos, que são maçãs de ouro puro, tantas quantas forem necessárias, sempre com o objetivo de abençoar financeiramente pessoas de coração puro como o seu, para resolverem seus conflitos. Não tema aos animais noturnos, pois há anjos acampados aqui, Maanaim, é um lugar selado.
- Durma recostado à árvore e amanhã você terá em mãos pelo menos uma maçã de ouro. Seu peso sempre será um mistério, mas o total de riquezas é suficiente para os escolhidos a virem aqui resolverem seus problemas e voltarem a trilhar os caminhos da justiça em paz. Durma, bendito Yan.
Então Yan respondeu, dizendo:
- Graças a Deus, louvado seja Deus!
E chorou bastante.
Comentários
Postar um comentário