PPES_01_BTV - Capítulo 01 – O Atentado
Capítulo 01 – O Atentado
Era uma segunda-feira de manhã, antes ainda do Sol despontar seus primeiros raios, quando Jin encontrou o corpo daquele homem desconhecido totalmente ensanguentado, ralado, com as vestes aos trapos, resultado do ataque fatal do cão-de-guarda Ras em defesa do território de sua família.
Durante a madrugada anterior, Jin acordou ao som dos ecos dos latidos de ras pelo vale e os gritos de desespero de alguém. Temeu Jin pela vida de quem quer que tivesse adentrado sua propriedade pois Ras era um cão-de-guarda muito agressivo com qualquer que fosse o desconhecido, apesar de para com a família ser extremamente dócil e brincalhão.
Jin retornou para casa e pediu a ajuda de seus filhos mais velhos Yan e Lee para colocarem o corpo do velho e gordo homem em um tipo de carrinho-de-mão para dar ao menos um enterro honroso ao desconhecido senhor.
Vindo do pomar com seus filhos, Ale, a esposa de Jin ficou curiosa para saber o que transportavam em plena segunda-feira tão cedo, sendo que na sexta-feira, sim, é que era o dia de se abater animais para comercializá-los na vila de Jadar, um vilarejo de cerca de 20 mil pessoas, centro administrativo das muitas fazendas e propriedades daquela inóspita e isolada região.
Tendo terminado de servir um mingau de aveia na mesa de jantar para seu filho mais novo Lun, Ale saiu da cozinha pela porta dos fundos e foi ao encontro de seu marido.
Ao aproximar-se e perceber braços e pernas pendulando para fora do carrinho, assustou-se e, ao confirmar de que se tratava do corpo de um homem morto, ficou horrizada com o estado deplorável com que este se encontrava.
Jin a abraçou e disse:
- Não temas, querida. Mas parece que Ras atacou este homem.
- E o que ele veio fazer aqui? Nunca o vi antes.
- Também não sei meu amor, mas vamos leva-lo ao vilarejo para ver se identificamos seus familiares. Vamos dar um banho nele e envolve-lo em lençóis, pois não temos roupas limpas que sirvam nele, pois é muito gordo. Possivelmente é um viajante que se perdeu, veja como está vestido! E a insígnia que carrega em seu cordão no pescoço não é de nenhuma das famílias do vilarejo. Não aparenta ser uma pessoa de má-índole. Pena que tenha morrido desta forma tão drástica. Que Deus receba a sua alma no paraíso das almas eternas.
Jin e seus filhos mais velhos despiram o velho homem e lavaram seu corpo do sangue. Aos poucos as outras crianças filhas de Jin (ele tinha um total de sete filhos, sendo cinco meninos e duas lindas princesas) saíam da cozinha após terem tomado seu mingau e se aproximavam curiosas para saber o que seu pai e seus irmãos mais velhos faziam, mas sua mãe Ale, percebendo que as crianças rondavam o corpo do gordo homem, as recolheu para o interior da casa e disse:
- Venham crianças, deixem a alma deste pobre homem em paz. Cada um para dentro, já, e cada um para seu trabalho, pois já tomaram o café. Hoje é o dia de quem lavar as louças?
Jin era um homem simples porém próspero. Morava numa casa grande que ele mesmo construiu ao longo da vida, toda de madeira decorada com tapeçarias rudes e móveis de bambú, feitos por ele mesmo, arte esta que desenvolveu após ter passado alguns anos a leste dos países orientais, por ocasião da comemoração de sua maioridade, aos 21 anos, como todo homem de sua tribo deveria fazer: sozinho, a cavalo, para algum lugar distante do mundo, com a finalidade de retornar para sua tribo trazendo tecnologia e invenções de outros povos distantes.
Casou-se com Ale na terra da sua peregrinação e escolheu Jadar para viver e constituir família. Ale apaixonou-se por Jin por ele se parece com um finado irmão que tinha. Era magro, de média estatura, cabelos negros, escorridos e lisos, olhos puxados, nariz e boca afinalados, queixo delineado. Encantou-se pelo fato de ser peregrino e, uma vez aprendido o básico da língua local, falava com sotaque e não sabia conjugar os verbos. Para complementar sua comunicação, gesticulava intensamente tentando se expressar e sorria bastante quando não conseguia ser compreendido, exibindo os alinhados dentes brancos e quase desaparecendo os seus olhos ao sorrir, de tão finos e esticados que eram.
Ale era encarregada de cuidar das crianças em sua tribo, contando histórias infindáveis sobre lutas, guerras, conquistas e heróis de exércitos cujas armas eram feitas de bambu.
A família de Jin era muito bem estruturada. Atribuíam às crianças, desde tenra idade, pequenas responsabilidades no trato do lar e eram muito bem educadas, ensinadas a respeitar os próximos, a natureza, a Divindade, os bens e ferramentas da propriedade, zelo para com as criações de animais que lhes forneciam carnes, gorduras, couros e chifres, além de serem terminantemente proibidas de entrarem no jardim secreto cuidado por Ale, pois entre as flores haviam plantas e sapos altamente tóxicos, cultivados para envenenar as armas de caça da família, uma cultura que a relembrava dos tempos em que na propriedade só havia um quarto de madeira, um banheiro no meio da mata e um fogão à lenha improvisado com pedras e rochas empilhadas.
Yan era o filho mais velho. Nasceu na terra natal de Ale, fruto do amor do jovem casal. Quando Jin, Ale e Yan retornaram para a tribo de Jin, os outros índios muito se alegraram, pois além de retornar vivo e são, Jin trouxe consigo uma esposa e um filho, considerados os maiores troféus adquiridos por um guerreiro. Pois nem o sangue de mil roubadores poderia encher um homem de felicidade e glória quanto cumprir a primeira ordem dada por Deus a todos os homens em todos os povos, tribos, raças e nações do globo terrestre: “Crescei e multiplicai-vos”.
Lavado o corpo, Levi, o terceiro filho homem do casal, preparou as celas dos cavalos e a carroceria que transportaria o corpo do homem morto até o chefe de Jadar, no intuito de devolvê-lo à sua família, caso fosse do vilarejo.
Apresentado o corpo ao chefe do vilarejo, este não o reconheceu, assim como os outros quatro sacerdotes religiosos convocados, nem a insígnia do brasão da família que ostentava ao pescoço, fazendo com que Jin se comprometesse a retornar com o corpo para sua propriedade e enterrá-lo com honra, como forma de pedir desculpas pelo fato de Ras, seu cão-de-guarda, ter-lhe tirado a vida.
Centro comercial que era, era comum as pessoas transitarem pelas ruas de Jadar em busca de itens de colecionador para adornar suas casas e servir de motivo de orgulho para convidarem vizinhos para admirarem os tais itens adquiridos, tamanha curiosidade natural daquele povo que valorizava pertences únicos e exclusivos de decoração.
Um homem maltrapilho perguntou a Jin o que transportava em sua carroceria e se estava à venda. Gentilmente Jin explicou a situação, o que fez com que o transeunte se aproximasse para ver o rosto do homem.
Ao reconhecê-lo como chefe de um bando de criminosos que roubavam em nações vizinhas e se escondiam em Jadar devido à sua boa-fama entre as nações, o maltrapilho permitiu-se perceber, pelas suas feições faciais, que reconhecera o homem, levando Jin a perguntar:
- Você conhece este homem? Estamos procurando sua família para entregá-lo.
Dissimuladamente o maltrapilho respondeu:
- Aguarde aqui que já vou trazer seus parentes.
Cerca de quarenta minutos depois, Jin e seus filhos Yan e Lee foram cercados por um sem-número de homens bem vestidos, montados a cavalo, todos armados, muitos deles fumando, barbados (o que era sinal de pessoas fora-da-lei) e gritando iá-iá.
Um após o outro iam desmontando de seus cavalos e aproximavam-se da carroceria de Jin, erguendo altos lamentos e palavrões, indignados e injuriados com o que viam: o corpo inerte e sem vida, duro e frio, dilacerado, de seu líder Dal Vidar, excelso e adorado líder.
Questionaram a Jin onde o encontraram e em que condições. Caso lhes mentisse, tirariam a vida de seus dois filhos, que foram imobilizados e tiveram a linha-de-corte de facões pressionados com força contra seus pescoços.
Apavorado e sem reação, Jin contou-lhes toda a verdade e que o chefe deles havia sido morto por seu cão. Decidiram os homens que iriam até sua propriedade para vingar a morte de seu líder, acompanhando todos eles a Jin e seus filhos, de regresso para sua casa.
Ao ver tantos homens barbados cavalgando com seus facões em exibição para o alto e gritando iá-iá, como que uma terrível intuição descera ao entendimento de Ale e um grande pavor tomou conta de seu coração.
Os homens decidiram destruir a casa de Jin e levar seus sete filhos para serem escravos em longínqua mina de sal mineral e, com o objetivo de não deixar rastros nem quem pleiteasse uma guerra com o objetivo de resgatar as crianças, tiraram a vida de Jin e Ale, degolando-os e aspergindo tenebrosamente o sangue quente sobre as assustadas e assombradas crianças.
Tendo saqueado os itens de valor da casa de Jin, quebraram tudo quanto foi possível e retiraram-se dizendo que olho por olho, dente por dente, o sangue de seu chefe Dal Vidar fora vingado e que o cachorro que o matara e que por ocasião estava preso e não parava de latir, morreria de sede e fome.
E assim se foram, levando as crianças cativas, deixando a casa destruída, abandonando os corpos de Jin e Ale à decomposição fétida, como se fossem pessoas sem honra, sem sentimentos, sem sonhos, sem história, sem valor.
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