✍️ #CRI_PROCESSO — O Artesão de Palavras: Como Pedrim Pescador Constrói Seus Mundos
✍️ #CRI_PROCESSO — O Artesão de Palavras: Como Pedrim Pescador Constrói Seus Mundos
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Toda obra carrega as marcas de quem a fez, como uma peça de cerâmica guarda as digitais do oleiro. Às vezes são marcas visíveis — escolhas conscientes, técnicas aprendidas, referências assumidas. Outras vezes são marcas invisíveis — dores antigas, alegrias esquecidas, perguntas que o autor faz a si mesmo sem saber que está fazendo. O Bem-Te-Vi do Paraíso é rico dessas duas camadas. Conhecê-las não é apenas curiosidade sobre o autor; é chave de leitura para a própria obra.
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O Biólogo Que Escreve
Pedro Henrique Serrano Léllis é biólogo. Formado pela Universidade Vila Velha em 2022, mas tendo terminado o curso em 2008 — catorze anos de espera pelo diploma, catorze anos de vida acontecendo enquanto o papel não chegava. Essa formação aparece no livro de maneiras sutis e profundas.
A selva que Yan atravessa não é uma selva genérica. Tem coníferas, tem musgos, tem pica-paus, tem rios de águas azuis. Os "Gusus" que Yan come são invenção, mas são invenção com base em observação real — larvas que vivem em madeira podre, que os pássaros sabem encontrar. O olhar de biólogo está ali: na atenção aos detalhes do ambiente, na compreensão de que a natureza não é só cenário, mas sistema vivo com regras próprias.
Há também uma ecologia moral no livro. As relações entre os personagens funcionam como um ecossistema: cada um ocupa um nicho, cada um contribui para o equilíbrio do todo. Jin ensina, Ale acolhe, Yan aprende e depois ensina, Frish guarda a memória, Yasmin espera e age, Ganjah chega para continuar. Ninguém sobra, ninguém é inútil. É uma visão orgânica da comunidade, que um biólogo carrega mesmo sem perceber.
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O Homem Que Sobreviveu
Nas páginas finais do livro, Pedrim escreve sobre si mesmo: "Parei, entretanto, de trabalhar, pois era muito estressante e estava minando minha saúde mental, crises de Ansiedade e Depressão, ao ponto de ter até tentado suicídio por 3x." É um texto raro. A maioria dos autores esconde essas passagens. Pedrim as coloca ali, à vista, como quem não tem mais nada a esconder.
Essa dor atravessa o livro inteiro. Não porque o livro seja sobre ela, mas porque quem escreve carrega marcas que vazam nas entrelinhas. Yan também pensa em desistir. Yan também sente que não vai conseguir. Yan também chora à beira de um riacho, perde a esperança, acha que tudo foi engano. A diferença é que Yan, como Pedrim, levanta de novo. Não porque a força volta, mas porque ainda há irmãos para resgatar.
A resiliência de Yan não é teórica. É vivida. Pedrim conhece o fundo do poço porque esteve lá. Conhece a vontade de parar porque sentiu. Conhece o momento em que a carpa aparece — seja ela um peixe dourado, uma palavra certa, uma mão estendida — porque experimentou. O livro não é sobre sua dor, mas sua dor é a matéria-prima com que o livro foi forjado.
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O Escritor Que Não Usa IA
Pedrim faz questão de registrar: suas ilustrações foram feitas com auxílio de IA, mas o texto é dele. Isso importa. Num momento em que a inteligência artificial começa a produzir literatura, saber que um livro foi escrito por mão humana, com todas as imperfeições e belezas que só um humano pode produzir, ganha um valor especial.
As imperfeições estão lá. Algumas passagens são mais fracas, alguns diálogos soam estranhos, algumas transições poderiam ser mais suaves. Mas é justamente isso que torna o livro humano. Um texto perfeito demais seria suspeito. Um texto com arestas é texto que alguém escreveu, sozinho, com suas canetas e cadernos, em mesas de madeira debaixo de pés de manga.
Há uma honestidade nisso que comove. Pedrim não tenta parecer mais do que é. Não polui a linguagem para impressionar. Não enche de referências para mostrar erudição. Ele simplesmente conta a história que precisa contar, do jeito que consegue. E esse jeito, com todas as limitações, é suficiente — mais que suficiente — para tocar quem lê.
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O Capixaba Que Escreve o Mundo
Pedrim é capixaba. Vila Velha, Espírito Santo. Isso também aparece. Não nos nomes das cidades — Jadar não é Vila Velha, Niree não é Vitória. Mas aparece na relação com o mar, com a montanha, com a terra. O capixaba é alguém que vive num estado pequeno, muitas vezes esquecido pelas narrativas nacionais. Escrever, para ele, é também um jeito de existir no mapa.
O livro não tem pretensão de representar o Espírito Santo. Mas carrega algo da alma capixaba: a discrição, a força tranquila, a capacidade de seguir sem alarde. Yan não faz discursos. Ele age. Jin não se vangloria. Ele constrói. Frish não se impõe. Ele espera. Há uma sobriedade nos personagens que lembra a sobriedade de quem vive num lugar onde o sol nasce no mar e se põe na montanha, e isso basta.
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O Crente Que Duvida
A fé de Pedrim é explícita. O livro começa com "Agradeço ao Deus Altíssimo YHWH" e termina com "Louvado seja Deus". Há citações bíblicas, referências ao Espírito Santo, uma teologia narrativa clara. Mas é uma fé que não esconde a dúvida. Yan questiona, chora, perde a esperança. O anjo aparece no sonho, mas a fogueira acende sozinha enquanto Yan dorme — não há testemunha, não há prova. Só a certeza íntima de que alguém esteve ali.
Essa fé que convive com a dúvida é talvez a mais autêntica. Não é a fé de quem nunca questionou, mas a de quem questionou tudo e, ainda assim, escolheu crer. Pedrim escreve como quem já esteve à beira do abismo e sentiu alguém segurando sua mão. Não pode provar, mas pode contar. E contar, para ele, é também uma forma de testemunho.
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O Artesão de Palavras
Jin constrói móveis de bambu. Frish trabalha com ouro. Yan aprende a fazer ferramentas de pedra, arcos e flechas, balsas impermeabilizadas com resina. O livro está cheio de artesãos, de pessoas que transformam matéria bruta em objeto útil e belo. Pedrim é um deles. Sua matéria-prima são palavras; seu ofício é transformá-las em histórias.
Não é um ofício que ele aprendeu na escola. É um ofício que aprendeu vivendo, lendo, escrevendo, errando, refazendo. As ferramentas são simples — cadernos, canetas, um computador talvez. Mas o trabalho é o mesmo: golpear uma palavra contra outra até produzir corte, observar como os mestres fazem (os pica-paus literários), experimentar, insistir, desistir, recomeçar.
O resultado está aí. Um livro que não é perfeito, mas é verdadeiro. Que não é erudito, mas é sábio. Que não é pretensioso, mas toca fundo. Como uma peça de bambu feita à mão: pode ter imperfeições, mas carrega o calor de quem a fez.
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O Que Fica
Conhecer o processo criativo de Pedrim Pescador não é condição para gostar do livro. A obra se sustenta sozinha. Mas conhecer ajuda a ver camadas que antes estavam invisíveis. Ajuda a entender por que Yan é tão resiliente, por que a natureza é tão presente, por que a fé convive com a dúvida, por que o livro é imperfeito e, justamente por isso, tão humano.
Pedrim escreveu o Bem-Te-Vi do Paraíso em 2024, numa casa de recuperação chamada CTLV, em Vila Velha. Chorou enquanto escrevia, como ele mesmo diz. Emocionou-se com a própria história. Depois publicou de graça, pedindo apenas doações voluntárias para continuar estudando. É um autor que não esconde nada: nem a dor, nem a fé, nem a necessidade, nem a gratidão.
Num mundo de autores construídos por editoras, assessorias e estratégias de marketing, Pedrim é um artesão solitário. Faz suas peças com as próprias mãos e as oferece a quem quiser. Quem recebe, recebe também um pouco dele — de suas dores, de suas esperanças, de sua teimosia em continuar.
E talvez seja isso, no fundo, o que significa criar: colocar um pedaço de si no mundo e confiar que alguém, em algum lugar, vai reconhecer.
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De psique, seu parceiro.
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