PPES_01_BTV - Capítulo 08 - Eliel - Final
Capítulo 08 – Eliel
O sino tocou avisando que alguém entrou na joalheira do senhor Frish. Eram Yan e Dap e Yasmin veio atender. Surpreendida com seu regresso inesperado, abraçou o jovem e o beijou no rosto, muito contente em seu coração por vê-lo novamente.
- E aí, meu jovem? Diga-me que conseguiu!
Com um sorriso de orelha a orelha, com os dentes mais belos e perfeitos que Yasmin jamais vira em outro rapaz, Yan respondeu:
- Yasmin... (E riu-se fartamente, o que a fez entender que tinha conseguido). Venha comigo e vou te apresentar os meus irmãos.
Ao sair da loja, Yasmin se surpreendeu com a cavalaria que superlotava a rua e lá estava eles, sentados nos cavalos, por coincidência na ordem de seus nascimento.
- Lee, Jade, Levi, Hill, Anny e Lun, sendo o mais velho com dezoito e o mais novo com sete. Quer dizer, oito, pois ele fez aniversário no caminho de volta. Se você reparar bem os outros escravos também vieram conosco e os homens de Dap estão articulando refeições nas lanchonetes do vilarejo pois a estas horas não deve haver um restaurante aberto.
- Venha comigo, vamos ver o meu pai. (E adentraram). Ele está acamado, muito doente, tossindo muito e com muita febre, desde que caiu da escada.
- Nossa, o senhor Frish se acidentou?
- Sim, e quebrou o braço. Foi muito difícil no começo fazer tudo sozinha, mas já estou me acostumando. Pai, o Yan voltou.
- Yan? O menino das maçãs de ouro?
- Claro, pai, quem mais seria?
- Yan, meu filho, que bom te ver. Acredito que tenha dado tudo certo.
- Sim, senhor Frish. Resgatei meus irmãos, libertamos os escravos e dividimos o ouro com os guardas e os escravos.
- E os sequestradores?
- Foram todos mortos. E eu vou poder voltar pra minha terra natal com honra e glória, pois eu venci a minha jornada de guerreiro.
- Quantos anos você tem?
- Vinte, mas faço vinte e um em dezessete de abril, está próximo.
- Bom, bom, bom. Muito bom. Parabéns e louvado seja Deus. Realmente foram necessárias muitas maçãs de ouro. Oito vezes mais nobre que a missão daquele outro rapaz, cujo nome não me recordo.
- Mas eu tenho uma notícia para te contar: sobrou uma maçã de ouro!
- Que bom meu filho, muito bom. E o que vai fazer com ela?
- Vou guardar para contar história, como lembrança.
- Faz muito bem, e foi uma ótima escolha.
- Mas eu tenho outra notícia para você, que dependendo de como você reagir eu vou poder me tornar o homem mais feliz do mundo, ou continuar esperando com paciência no Senhor.
- E o que é, meu filho?
- Tenho mais uma maçã. E com ela eu gostaria de pedir a mão da sua filha Yasmin em casamento. (Disse, olhando para ela).
- Claro que sim, meu filho, claro que sim! Yasmin me comentou que se você não a pedisse em casamento, ela mesmo pediria a você.
- Pai, para! Não fala pra ele! É contra os bons costumes uma mulher pedir o homem em casamento, pois ele vira galinha, preguiçoso e beberrão. (Disse Yasmin sorrindo, tomada de emoção).
- Então você aceita se casar comigo? Eu te dou esta maçã e o mais importante: o meu mais puro amor, de todo o coração. Pois tenho vinte anos e nunca namorei. Tenho todo amor do mundo guardado em mim. Sou feinho e desajeitado, mas eu sempre ajudei meus pais...
Yasmin interrompeu-o, pondo seu dedo indicador na boca de Yan como quem diz: “não precisa dizer mais nada”.
- Cresci ouvindo a lenda do Bem-Te-Vi do Paraíso e jurei desde criança para mim mesma que me casaria com um jovem que tivesse sido escolhido pela espiritualidade e que esse rapaz deveria vir até aqui como aquele primeiro rapaz veio. Por isso tenho esse pingente de carpa dourada do rabo azul. Todo menino que pedia pra namorar comigo eu perguntava se ele já tinha visto esse peixe antes.
- Essa é a carpa dourada que apareceu pra mim no rio!
- Então é com você que quero casar!
Yan beijou Yasmin na boca e ali se amaram, infinitamente, mesmo que por alguns segundos. Naquela época e naquelas terras beijar na boca era sinal de aliança e tido com muita seriedade, pois era considerada uma forma de conjunção carnal.
- Eu abençoo vocês. Agora eu posso morrer em paz. Encontrei o marido da minha filha. Alguém que vai cuidar dela pra mim no meu lugar. Desde quando eu vi a maçã dourada na sua mão eu já entendi que isso aconteceria. Por isso disse, naquele dia, que poderia morrer. Quando você foi embora fiquei triste, achando que resgataria seus irmãos e fugiria para uma terra mais distante, mas eu não poderia oferecer a minha filha assim e as incertezas tomaram conta do meu coração. E louvado seja o Nome do Senhor.
- Tome meu colar. (Disse Yasmin para Yan). Para você se lembrar de mim quando retornar para sua terra.
- Mas eu não vou sem você!
Yasmin beijou Yan e disse:
- Eu te amo e sou tua mulher.
- Eu te amo e quero um filho.
- Seu nome será Betuel, que significa habitaçãode Deus.
- Amém.
- Amém!
Com o passar dos dias, os cavaleiros de Dap se dispersaram e os escravos, agora livres, também. Yan e Yasmin se dedicaram em escrever cópias da lenda do justo rei que o Bem-Te-Vi do Paraíso contou e também réplicas do quadro que Yasmin pintou, entregando para cada um dos escravos, sendo-lhes confiado a missão de espalhar a lenda pelos quatro cantos do mundo.
Os irmãos de Yan viveram no vilarejo de Niree aglomerados numa hospedaria adquirida com ouro, próximo da joalheria, e permaneceram no vilarejo até o velho Frish morrer, momento em que Yan desceu com sua família para a terra de Jadar.
Ao som de muita trombeta, chegou na cidade e convocou os anciãos e narrou-lhes, na companhia de seus irmãos, esposa e o filho Betuel, o máximo de detalhes de sua jornada de guerreiro.
Anunciou o chefe que Yan foi retirado à força de sua terra ainda como criança, mas que retornava aos vinte e quatro anos como um verdadeiro e nobre índio. Primeiro, por ter sobrevivido. Segundo, por ter resgatado seus irmãos. A alegria de seu povo estava no terceiro fato: retornara à terra de Jadar com uma esposa e um filho nas mãos. Nem mesmo o sangue de mil roubadores será tão valioso quanto cumprir a primeira ordem dada por Deus aos homens: “Crescei e multiplicai-vos”.
Antes do senhor Frish morrer, comentou Yan com ele que deveria retornar levando tecnologia de outro povo e que queria aprender a arte da ourivesaria. Assim, logo que chegou em sua terra natal, Yan providenciou abrir uma joalheira que, por tradição, manteve o nome de Eliel, em cujo interior ficava em exibição, no alto, e à vista de todos que entravam, atrás do balcão, uma linda maçã de ouro.
Como a lenda viralizou mundo afora, líderes e príncipes de todos os reinos, raças e línguas empreendiam viagem para Jadar para ver a maçã e o quadro do Bem-Te-Vi do Paraíso. Por isso Yan também abriu uma hospedaria para seus irmãos trabalharem.
Yan e Yasmin venderam muitas joias ao longo de toda a sua vida, tiveram muitos filhos e foram muito prósperos. Eu poderia dizer que foram felizes para sempre, mas não posso encerrar este conto sem dizer que certo dia, depois de muitos anos, uma jovem adolescente, negra de pele luzidia, vinda da África, entrou na joalheria do jovem casal e, abrindo um sorriso ao ver a maçã de ouro na parede atrás do balcão, abriu um largo sorriso. Sem falar o idioma de Jadar, tirou uma pesada mochila das costas e apresentou doze maçãs de ouro, que através de gestos ela indicou terem sido ganhas pelo Bem-Te-Vi do Paraíso.
Espantados e felizes ao mesmo tempo, Yan e Yasmin disseram:
- Se no nosso caso foram oito maçãs de ouro, por conta da complexidade do problema, imagina o que aconteceu com essa jovem?
Agora sim eu posso dizer que Yan e Yasmin foram felizes para sempre.
Lembrando que riqueza não é sinônimo de prosperidade.
Muito se falou do bendito Bem-Te-Vi do Paraíso, mas ele só foi abençoado por conta do Espírito de Jeová Deus que habitava na espada do justo rei. Então se você quer ser imbatível nas suas batalhas, seja cheio do Espírito Santo e defenda a causa daqueles que forem mais vulneráveis do que tu, em especial órfãos, viúvas e drogados.
Ainda que a glória seja do Bem-Te-Vi, admiremos sempre a história do justo rei. Forasteiro, em terra estranha, montou uma cooperativa e prosperou toda uma nação, acabando com as disputas de famílias e o derramamento de sangue inocente.
Ganjah, a menina africana, ficou hospedada na casa de Yan e Yasmin e, aprendido a língua local, lhes relatou o que lha disse o Bem-Te-Vi do Paraíso, acrescentando à história que o nome do justo rei era Benjamim. Ganjah contou sua história e o seu problema, mas isso eu vou contar em outro dia, quem sabe em outro pergaminho?
FIM.
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Pedro Henrique Serrano Léllis,
Pedrim Pescador,
Junho/2023, Centro Terapêutico Luz e Vida.
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