PPES_01_BTV - Capítulo 03 - O Sonho

 Capítulo 03 – O Sonho

Yan passou algumas horas esperando sua roupa secar e enquanto isso já planejava dentro de si que deveria providenciar armas leves de caça, pois desconhecendo as frutas da região, não poderia se intoxicar levado pelo delírio de matar sua fome, já que mantendo-se próximo ao rio teria água para matar a sede. Tendo planejado tudo e criado uma lista mental dos itens necessários e de como produziria as armas de caça do zero, sentou-se, respirou fundo e tomou um pouco de sol.

Golpeou uma pedra contra a outra e produziu um instrumento de corte com o qual cortou um fino tronco de arbusto e afiou as pontas, providenciando uma lança com a qual poderia ao menos se proteger de algum animal selvagem que o viesse atacar.

Ainda nu e caminhando à beira do rio, encontrou algumas penas negras de pontas brancas, que com elas determinou em seu coração produzir um arco-e-flecha. Cortando o pano de sua camisa e costurando-o com tiras do seu cadarço, forjou uma bolsa onde carregaria duas pedras de seixo intactas para fazer fogo e já golpeada que lhe serviria por instrumento de corte.

Decidiu seguir o rio à jusante, ou seja, no sentido em que suas águas correm, pois para lá haveria mais chances de encontrar um povoado ou vilarejo onde pudesse trabalhar e juntar dinheiro para pagar o resgate dos irmãos, isto é, caso ainda os encontrasse com vida, onde quer que fossem localizadas as tais minas de sal.

Yan era um jovem de espírito forte. Sempre acompanhou seu pai em caçadas, atividades de subsistência da propriedade e trabalho artesanal com bambu, fonte de renda da família nas cercanias de Jadar.

Ainda tomado de assombro e medo, Yan desceu o percurso do rio, procurando avistar algum animal bebendo água ou alguma ave migratória para abater, pois os dias foram se passando e a fome já apertava.

Começou a ouvir de longe pios e assobios e soube que logo encontraria aves e quem sabe conseguiria prover-se de uma delas para se saciar e até quem sabe adereçar suas vestimentas com penas.

Fazendo a curva do rio, deparou-se com milhares de corvos pescadores mergulhando ouriçados contra as gélidas águas azuis do rio e retornando aos ares com peixes em seus bicos. Empreendendo a arte da guerra, conseguiu abater algumas aves e também seus peixes, mas não encontrou lenha seca para fazer uma fogueira, o que o levou a comer as carnes dos animais abatidos, cruas, o que para ele foi aclamada como a primeira vitória na sua luta por sobrevivência.

Aquecido pelo sol que amenizava o constante vento seco e frio, saciado, encostado à raiz de uma árvore como se dela fizesse um travesseiro, depois de dias a fio acordado, exausto mentalmente, e agora de barriga cheia, adormeceu.

Em sonhos um lindo anjo de cabelos púrpura e vestes cintilantes lhe apareceu, dizendo:

- Yan, bem aventurados os que têm sede de justiça, pois serão saciados. O Altíssimo se agradou do seu nobre propósito de resgatar seus irmãos e providenciou os recursos que você precisa. Atravesse o rio à leste, escale a montanha e vá atravessando outros rios até encontrar a carpa dourada de rabo azul turquesa e siga o curso do rio à montante, até alcançar a sua nascente e lá receberás novas instruções.

O sonho foi vívido, colorido, intenso e real. Ainda era madrugada quando Yan despertou de horas seguidas de profundo sono restaurador, quando acordou impactado. Ao seu lado, para sua terrível surpresa, uma pequena fogueira estava acessa e ao vê-la arrepiou até o mais profundo de sua alma e com lágrimas nos olhos glorificou ao Deus Altíssimo e disse:

- Deus está comigo e eu não sabia.

Estendeu suas mãos em direção ao fogo no intuito de esquentá-las. Achegou-se para mais perto do fogo e novamente adormeceu.




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