PPES_01_BTV - Capítulo 02 - A Fuga

 Capítulo 02 – A Fuga

Yan e seus irmãos foram amarrados, amordaçados e transportados individualmente, ensacolados, debatendo-se, chorando histericamente, totalmente tomados por assombro e temor, totalmente traumatizados pela forma brutal e injusta com que seus amorosos pais foram assassinados, não esquecendo e mais ainda impactados pelo fato de terem sido banhados com sangue quente, fazendo-os imaginar a todo momento que também seriam brutalmente assassinados.

O que seria de sua família, de sua incolumidade, de sua sobrevivência e dos sofrimentos que lhes seriam infligidos por aqueles malvados homens que, tomados de impiedade, desferiam-lhes socos, dolorosos golpes e constantes ameaças de tortura e violência, como o arrancar de seus olhos, orelhas, línguas e braços?

O galopar dos cavalos permanecia viril e constante. O tempo passava e os cavaleiros silenciaram-se. Ordenaram às crianças que se calassem e ficassem calmos, assim males maiores não recairiam sobre elas. Era como se as crianças também se entregassem, já cansadas de tanto relutar.

Pelo balançar dos cavalos percebram que não seguiam pelas estradas, e sim por um caminho irregular, talvez composto por pedras em desnível e recheado de galhos, devido o som dos estalos dos seus trincar, ao serem pisoteados pelos cavalos.

Depois de algumas horas de silêncio, já envolvidos pelo breu, os cavalos pararam e uma voz ordenoi:

- Tragam as crianças para este quarto e não as retirem dos sacos. Vamos deixa-las assim, com fome e sede. Que se f*&%, elas não vão morrer de um dia para outro.

- O que vamos fazer com elas? (Uma voz perguntou.)

- Vamos levá-las para as minas de sal, junto com os outros escravos. E lá vão trabalhar para sempre. Elas que se f*&%. O cachorro delas matou nosso venerado líder.

- Mas os pais delas já foram mortos...

- E eu com isso? Você quer que a tribo dos índios caçadores venha atrás de nós? Eles usam sarabatanas envenenadas e eles são certeiros. Uma agulhada no pescoço e você vai morrer sem conseguir pedir ajuda, duro como pedra. E você vai morrer de olhos abertos, pedindo para viver mais um dia. Eu que não vou te enterrar. As hienas vão disputar sua carne e você vai ser dilacerado vivo. Vamos ganhar muito dinheiro com elas.

- Porque não as vendemos ao longo do caminho? (Outro cavaleiro do bando perguntou.)

- Cala a sua boca. Sou eu que mando nessa des*&%. Você quer deserdar do bando e morrer de pauladas? (O outro calou-se.) Então faz o que eu mando e vai se f*&%.

Não havia nenhuma das crianças em paz. Apesar de terem se calado e, sentindo as dores dos socos que recebram ao longo do caminho, conformaram-se do infortúnio que lhas sucedera.

Yan estava prestes a completar vinte e um anos. Pensava que não poderia participar do seu ritual de passagem para a vida adulta. Por muitos anos questionou-se acerca de qual direção tomar para empreender sua jornada. Norte, sul, leste ou oeste? Por quantos dias viajaria e qual nação desconhecida adotaria para aprender seus costumes e tradições para retornar com honra?

Como irmão mais velho dos agora órfãos, sentiu-se na responsabilidade de assumir a liderança da família e salvar as crianças do futuro escravagista. Sozinho ou acompanhado de seus irmãos, eles jamais teriam força contra aquele imenso bando armado para liderar uma rebelião.

Ficou arquitetando em sua mente uma solução plausível para salvar seus irmãos. Considerando em seu coração todas as possibilidades para alcançar sucesso em seu intento, concluiu que deveria lançar-se em sua jornada do guerreiro indígena sozinho e que, ainda que durasse toda sua vida e trabalhasse como um jumento de cargas, só regressaria à sua terra natal com seus irmãos sãos e salvos.

Somente o trabalho dignifica o homem e como se tornara o líder da família, ele deveria ser o responsável pelo resgate de seus irmãos.

Aquela noite foi fria, seca, abafada, enclausurada, um verdadeiro cárcere privado. Com fome, frio, sede, molhados pelo sangue que, como cola, aderia aqueles sacos em seus corpos, um misto de todas as emoções tenebrosas perfaziam as mentes das crianças. Não sabemos a quantas horas, mas o certo é que todas elas adormeceram exaustas, exceto Yan, que não desligava por nem um segundo. 

No dia seguinte os criminosos do bando desensacolaram as crianças, alegando que tudo será melhor se elas fossem obedientes e comportadas. Retirando-as dos sacos, mas sem desamarrar suas mãos e pés, as alimentaram e dessedentaram, passando instruções, ordens, comandos e todas as possíveis ameaças, mantendo um verdadeiro gentil terror psicológico.

Acreditaram que todos os cavaleiros do bando estavam ali reunidos. Uns fumando, outros afiando seus facões, outros engordurando com banha suas botas e praticamente nenhum deles fitando as crianças nos olhos.

Yan levantou uma das mãos, como que pedindo oportunidade para falar, o que lhe foi concedido.

- Se fizer alguma besteira, eu corto sua língua.

- Posso falar com meus irmãos?

- Pode. Mas eu estou monitorando tudo.

- Crianças, fiquem tranquilas. Vai dar tudo certo. Vamos fazer tudo que eles pedirem.

- Só faz o que a gente manda, só falem se a gente deixar e nenhum dedinho de vocês será arrancado.

- Vocês vão matar a gente? (Perguntou Hill, um dos irmãos mais novos de Yan.)

- Ninguém deixou você falar. Você quer que eu arranque um dente seu?

E Hill começou a chorar.

Esse homem do bando se aproximou e todos os irmãos temeram. Mas ele afagou Hill e o acalmou:

- Calma neném, não vamos machucar vocês. Pelo contrário, vocês serão muito bem tratados, basta ser um bom menino. Chegando nas minas de sal vocês vão ser recebidos com uma farta mesa de guloseimas e vocês vão ajudar a gente a ganhar dinheiro. Vocês não passarão fome poderão até brincar e se divertir! (Falou o bandido com ar de ironia.)

- Cale a sua boca, seu burro. Pare de falar baboseiras. Essas crianças vão se f*&% pra sempre naquele inferno. (Disse outro sequestrador.)

- Se liga, hora de levantar acampamento. (Disse outro ainda.) São sete crianças, então na viagem vão ser 10 cavaleiros que vão atravessar a floresta, as montanhas e o deserto. Vocês serão levadas por nós como se fossem nossos filhos e se alguém fizer alguma pergunta a vocês, vocês devem permanecer calados, se não eu mato vocês um por um e o filho da p*&% que estiver perguntando de mais. A viagem vai ser longa e vão não vão viajar sujas e descabeladas. Quero todo mundo bem comportado se não a gente vai f*&% com vocês e eu mesmo vou ter o prazer de arrancar seus olhos e dentes. Velho cachaceiro, tranque as crianças no banheiro e deixe-as tomar banho e lavar suas roupas. Meio dia em ponto almoçamos e partimos. Até lá Redi já vai ter trazido os queijos de Jadar para vocês comerem alguma coisa durante a viagem. E sem gracinha ou todo mundo morre.

Apesar de serem maus, os criminosos demonstraram um mínimo de código de conduta, hierarquia e obediência. Eram bem organizados e cada um sabia sua função. 

Eram errantes deserdados de suas tribos. Homens derrotados que por fim se incubiram de alguma coisa para fazer para se manterem vivos, mesmo que fossem impiedosos com quem saqueavam e projetaram várias trilhas secretas por meio de vales, riachos, pastos e florestas para que seus crimes fossem praticados sem rastros e sem riscos de sucumbência para a organização.

A viagem de traslado para as minas de sal duraram dias a fio. Fizesse sol ou fizesse chuva, andavam lentamente para preservar os animais, cada cavaleiro com uma criança, cada qual amarrada com uma corda em suas cinturas para evitar que fugissem. Eram poucas as paradas, sempre ocorrendo no interior de matas fechadas, antes do sol se pôr, de preferência próximas a riachos, brejos ou lagoas, oportunidades em que os cavaleiros aproveitavam para se banhar e dessedentar os animais. Pedaços de queijo eram racionados e administrados para as crianças. Nada que de fato alimentasse, mas que pelo menos enganasse a fome.

Yan observava tudo, todos os movimentos dos cavaleiros, procurando sempre um vacilo ou brecha para que pudesse sumir da vista deles sem que percebessem, e temendo sempre que sua ousadia custasse a vida dos seus irmãos.

Depois de muitos dias de viagem, já tendo saído da floresta e trotando por íngremes despenhadeiros montanhosos, Yan pediu para a caravana parar para que pudesse ir ao banheiro. Acompanhado pelo seu cavaleiro pediu-lhe ao pé-do-ouvido que o desamarrasse para que tivesse um pouco de privacidade para defecar, argumentando que sofria de prisão de ventre e precisaria de um pouco mais de tempo para evacuar bastante e não interromper novamente a viagem; que não teria como fugir pois o caminho era estreito: à frente e às costas estariam outros cavaleiros, à esquerda havia um paredão rochoso qual não poderia escalar e à direita havia um precipício que, se nele caísse, não sobreviveria. O cavaleiro consentiu, acendeu um cigarro e o deixou descer alguns patamares de rocha.

Do meio da vegetação Yan começou a gemer e fazer, com a boca, sonoros puns e entre um gemido de alívio e outro pum, percebeu a chance de empreender fuga, saltando em direção ao vazio, tendo por alvo um longo cipó que agarrara com todas as suas forças mas que, revestido por limo escorregadio, o fez descer em alta velocidade muitos metros abaixo, sendo tomado por uma alta descarga de adrenalina, Yan pensou ter sido este um salto para a morte.

Quando acabou a extensão do cipó, Yan foi caindo sobre galhos e rochas e espinhos e mais rochas, rolando como uma bola de neve, sem controle nenhum dos movimentos e caindo por fim nas águas de um rio que nem mesmo lá de cima poderia ser visto e que nem ele mesmo imaginava ser possível de ali haver.

As águas eram tão geladas que Yan sentiu o frio penetrar sua pele como uma miríade de agulhas a espetar e o seu desespero passou a ser sair de dentro do rio antes que a hipotermia enrijecesse seus músculos, o impedindo de nadar.

Já na beira do rio, olhou para cima e já não havia rastro algum da caravana pois a vegetação impedia de ver acima. 

Despindo-se totalmente de suas roupas e as estendendo-as para secar sobre a margem de pedras de seixo, apalpou todo o seu corpo em busca dos ferimentos adquiridos, espinhos encravados e possíveis ossos quebrados. Tendo verificado estar tudo bem consigo apesar dos arranhões e ainda tremendo de adrenalina e medo, pôs uma das mãos na cabeça não acreditando na loucura que fez e levantou um clamor ao Deus Altíssimo para que os cavaleiros não retaliassem seus irmãos.

Perdido no meio do nada, sem imaginar onde estava pois nunca tinha saído dos limites de Jadar, entendeu ser possível seu plano de resgate e mesmo não tendo completado vinte e um anos de idade, iniciava-se ali a sua jornada de guerreiro indígena.

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