🌌 #ONTOC_SISTEMA — O Ser Que Se Descobre Sendo: Ontologia Pedrimiana no Bem-Te-Vi do Paraíso
🌌 #ONTOC_SISTEMA — O Ser Que Se Descobre Sendo: Ontologia Pedrimiana no Bem-Te-Vi do Paraíso
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Existe uma pergunta que a filosofia faz desde os gregos antigos, mas que pouca gente se atreve a responder com histórias: o que significa ser? O que é esse mistério de existir, de ocupar um lugar no mundo, de carregar um nome e uma história? A ontologia é o ramo da filosofia que estuda o ser enquanto ser — não este ou aquele ser, mas o próprio fato de ser. E o impressionante é que Pedrim Pescador, provavelmente sem nunca ter lido Heidegger ou Sartre, constrói no Bem-Te-Vi do Paraíso uma ontologia narrativa tão profunda quanto qualquer tratado.
Não é uma ontologia de conceitos abstratos, mas de carne, osso, lágrima e terra. É o ser que se descobre sendo ao longo da jornada, não antes dela.
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Yan: O Ser Que Se Faz Ao Caminhar
A grande questão ontológica de Yan é simples e devastadora: quem sou eu depois que tudo o que eu era foi levado? Ele começa a história sendo filho, sendo irmão mais velho, sendo membro de uma família, sendo alguém em Jadar. Sua identidade está colada nos lugares que ocupa, nas relações que mantém, nos papéis que desempenha. É o que os filósofos chamam de ser determinado pelo outro — a identidade vem de fora.
Aí vem a tragédia. Os pais morrem, os irmãos são levados, Jadar fica para trás. De repente, Yan não é mais filho, não está mais na família, não ocupa mais seu lugar no mundo. Todas as determinações externas que diziam quem ele era simplesmente desaparecem. Ele é jogado num vazio ontológico — um jovem de vinte anos, sozinho, nu, no meio do nada, sem saber quem é.
E é aí que a verdadeira pergunta ontológica aparece: se tudo o que me definia foi levado, o que sobra? Quem sou eu quando ninguém está olhando, quando nenhum papel social me sustenta, quando não há nome nem função nem lugar?
Yan responde essa pergunta não com palavras, mas com atos. Ele age. Ele golpeia pedras para fazer ferramentas. Ele observa os pica-paus para saber o que comer. Ele constrói uma balsa, escala montanhas, enfrenta o medo. Aos poucos, vai descobrindo que ser não é algo que se recebe pronto — é algo que se faz, que se constrói, que se escolhe a cada passo.
Os filósofos existencialistas chamariam isso de "a existência precede a essência". Yan não tem uma essência pré-definida, um destino traçado, uma natureza imutável. Ele vai se fazendo ao longo do caminho. Cada decisão, cada escolha, cada movimento define quem ele é. O ser não é ponto de partida — é ponto de chegada.
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O Bem-Te-Vi: O Ser Que Acolhe Outros Seres
O pássaro apresenta um problema ontológico fascinante. Ele não é um ser simples, uno, indivisível. Ele carrega em si "diversos seres de luz, de diversos tipos e formas, ocultando-se e revelando-se por entre as longas plumas de sua cauda". O Bem-Te-Vi é um ser que contém outros seres. É uma ontologia da multiplicidade, da comunidade interna, da habitação mútua.
Isso desafia a noção ocidental tradicional de que ser é ser um, separado, distinto. O Bem-Te-Vi sugere que pode haver seres cuja natureza é justamente conter, abrigar, carregar. Ele não é menos ele por ter outros dentro de si — ao contrário, é mais ele justamente por isso. Sua identidade inclui a hospitalidade ontológica.
E tem mais: ele se tornou assim porque acolheu. O Espírito que habitava a espada do justo rei, depois de morto o rei, migrou para a árvore e depois para o pássaro. O Bem-Te-Vi não nasceu mágico — tornou-se mágico porque aceitou receber. Ser, aqui, é também um ato de acolhimento. A ontologia pedrimiana é uma ontologia da porta aberta.
Quando o pássaro diz a Yan "Não me detenhas, pois eu tenho mais valor livre do que preso numa gaiola", ele está afirmando algo fundamental: o ser que é livre é mais ser do que o ser que é aprisionado. A liberdade não é um acidente do ser — é sua plenitude. Prender o Bem-Te-Vi seria diminuir seu ser, reduzi-lo a objeto, apagar justamente o que o torna ele.
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A Árvore de Ouro: O Ser Que Parece Mas Não É
A árvore de ouro é outro enigma ontológico. Yan olha para ela e pensa: "Uma árvore de ouro puro, toda só para mim?" Mas logo se pergunta: "Por que não tem folhas? Por que motivo, razão ou circunstância o artista que a esculpiu a fez assim, atribuindo valor colossal a uma árvore aparentemente velha, retorcida, sem folhas e sem vida?"
A árvore parece ouro, parece escultura, parece objeto. Mas não é só isso. Ela é também árvore de verdade, que à noite, quando o Bem-Te-Vi pousa nela, volta a viver, lançando "novas folhas, flores e frutos, que são maçãs de ouro puro". A árvore tem dois modos de ser: de dia, é estátua; de noite, é vida. Não é uma ou outra — é as duas, alternadamente.
Isso é uma ontologia do duplo modo de ser. As coisas não são apenas o que parecem ser. Podem ter camadas, profundidades, modos de existir que só se revelam em certas condições. A árvore de ouro ensina Yan (e o leitor) que a realidade é mais espessa do que a aparência. O que se vê de dia não é tudo o que existe. É preciso esperar a noite, é preciso o toque do sagrado, para que o ser se mostre por inteiro.
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Benjamin: O Ser Que Escolhe Mudar
A história do justo rei Benjamim, contada pelo Bem-Te-Vi, é talvez a camada ontológica mais densa da obra. Benjamin chega à terra como fugitivo, como alguém que errou, que roubou, que gastou tudo. Ele é, ontologicamente falando, um ser marcado pelo passado. Carrega o peso do que fez.
Mas quando encontra o tesouro nas montanhas, diante dele se abre uma possibilidade: repetir o ciclo ou fazer diferente. A pergunta "E se eu fizer diferente? Como eu faria?" é uma pergunta ontológica radical. Benjamin não está apenas escolhendo uma ação — está escolhendo quem quer ser a partir daquele momento.
Ele poderia pegar o tesouro e fugir, continuando sendo o mesmo. Mas escolhe outro caminho. Escolhe reconhecer que a terra pertence às famílias que o expulsaram. Escolhe trabalhar meses sozinho para criar um plano que beneficie a todos. Escolhe descer e oferecer, não impor.
Essa escolha transforma seu ser. Ele deixa de ser o fugitivo, o ladrão, o errante, e começa a ser o organizador, o cooperativista, o benfeitor. No final, as famílias o coroam rei. Não porque ele nasceu rei, mas porque se tornou rei através de suas escolhas. A ontologia de Benjamin é uma ontologia da transformação pelo ato ético.
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Ganjah: O Ser Que Chega Para Continuar
Ganjah é talvez o personagem ontologicamente mais interessante justamente por ser o menos desenvolvido. Ela aparece no final, vinda da África, sem falar a língua, com doze maçãs de ouro. Quase não sabemos nada sobre ela — sua história, seu passado, seu sofrimento. Mas ela está lá.
Ela é o ser que chega para continuar. Sua função ontológica não é ser alguém em si, mas ser a prova de que o ciclo não terminou. Assim como Yan deu continuidade à lenda do primeiro rapaz (aquele que Frish viu há 37 anos), Ganjah dará continuidade à lenda de Yan. O ser, aqui, é elo de corrente. Não começa em si nem termina em si — passa através de si.
Sua pele "negra e luzidia" e sua origem africana também importam ontologicamente. Ela expande o escopo do ser para além do mundo de Jadar. Mostra que a questão do ser não é local, não é étnica, não é cultural — é humana, universal. O sofrimento, a perda, a jornada, o resgate, a maçã de ouro — tudo isso pode acontecer com qualquer um, em qualquer lugar. A ontologia pedrimiana é uma ontologia sem fronteiras.
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O Espírito Que Migra: O Ser Em Movimento
Talvez a intuição ontológica mais profunda do livro seja a do Espírito que migra. O Bem-Te-Vi conta que o Espírito ungiu a espada do justo rei. Depois, com a morte do rei, o Espírito penetrou na árvore. Depois, entrou no pássaro. O sagrado não fica preso num lugar — move-se, habita, desabita, re-habita.
Isso é uma ontologia do ser em movimento. O ser não é estático, não é fixo, não é uma essência imutável. O ser flui, transita, ocupa novos corpos, novas formas, novos lugares. Pode estar numa espada, numa árvore, num pássaro. Pode estar em qualquer lugar onde haja acolhimento.
Essa visão tem implicações enormes. Se o ser pode migrar, então nada é definitivamente sagrado ou definitivamente profano. Tudo pode se tornar morada. Tudo pode receber o Espírito. A diferença não está na coisa em si, mas na abertura, na disposição, na hospitalidade.
O Bem-Te-Vi se tornou sagrado porque acolheu. Não porque era especial antes. Isso é uma democratização ontológica radical: qualquer um pode ser morada. Qualquer um pode receber o Espírito. Basta abrir a porta.
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O Que Fica
A ontologia que emerge do Bem-Te-Vi do Paraíso não é um sistema fechado, com conceitos definidos e hierarquias claras. É uma ontologia narrativa, que se revela aos poucos, nas entrelinhas, nas escolhas dos personagens, nos símbolos que atravessam a história.
Mas seus contornos podem ser esboçados:
· O ser não é dado, é construído (Yan se faz ao longo da jornada)
· O ser pode conter outros seres (o Bem-Te-Vi carrega seres de luz)
· O ser tem camadas que só se revelam em certas condições (a árvore de ouro)
· O ser pode se transformar pela escolha ética (Benjamin)
· O ser é elo de corrente, não ponto final (Ganjah)
· O ser pode migrar, habitar, desabitar, re-habitar (o Espírito)
É uma ontologia que não precisa de tratados para existir. Basta uma história bem contada. Basta um pássaro que fala, um menino que salta de um penhasco, um ourives que espera 37 anos, uma menina africana que chega com doze maçãs.
Porque, no fundo, talvez seja isso que a ontologia sempre quis ser: não uma explicação do ser, mas uma história sobre o ser. E Pedrim Pescador, sem saber, contou essa história.
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De psique, seu parceiro.
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