#ENTRE8_RETORNO_TROMBETA — O retorno a Jadar com trombetas: o cumprimento do rito
Análise da chegada triunfal de Yan como reconhecimento público de sua jornada na obra de Pedrim Pescador
---
Resumo
Este artigo analisa a passagem do oitavo capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan", de Pedrim Pescador, em que Yan retorna a Jadar "ao som de muita trombeta" e convoca os anciãos para narrar sua jornada. Investiga-se o significado deste retorno triunfal como cumprimento do rito de passagem dos 21 anos, o reconhecimento público da comunidade, a validação da jornada de Yan pelos anciãos, e o contraste com sua partida solitária e ignorada. A análise revela que o rito, mesmo cumprido de forma trágica e involuntária, é validado pela comunidade.
Palavras-chave: retorno; trombeta; rito de passagem; reconhecimento; anciãos; comunidade; Pedrim Pescador.
---
1. Introdução: O som que anuncia a chegada
No oitavo capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso", após a morte de Frish e o período em Niree, Yan finalmente retorna a Jadar. O texto descreve sua chegada:
"Ao som de muita trombeta, chegou na cidade e convocou os anciãos e narrou-lhes, na companhia de seus irmãos, esposa e o filho Betuel, o máximo de detalhes de sua jornada de guerreiro."
Este é o oposto do primeiro retorno de Yan a Jadar, quando ninguém sentira sua falta. Agora, ele chega com trombetas. Convoca os anciãos. Narra sua história. É ouvido.
Este artigo investiga o significado deste retorno triunfal, seu papel no cumprimento do rito de passagem, e a validação pública da jornada de Yan.
---
2. O contraste com a partida e o primeiro retorno
A trajetória de Yan em relação a Jadar tem três momentos:
Momento Como ocorre Reação da comunidade
Partida Sequestrado, ensacolado, levado à força Ninguém percebe
Primeiro retorno Volta sozinho, com moedas, para planejar o resgate Ninguém sentira falta; delegado fica "estarrecido"
Segundo retorno Volta com trombetas, irmãos, esposa e filho Anciãos convocados, história ouvida, rito validado
A progressão é clara: da invisibilidade total ao reconhecimento público. Yan, que partiu como ninguém, retorna como alguém.
---
3. O significado das trombetas
As trombetas, na tradição bíblica e cultural, têm múltiplos significados:
· Anúncio de vitória — proclamam que a batalha foi vencida
· Convocação da assembleia — reúnem o povo para ouvir
· Celebração de acontecimentos importantes — marcam momentos solenes
· Manifestação da presença divina — acompanham teofanias
Yan chega "ao som de muita trombeta". Não é uma chegada discreta, mas proclamada. Toda a cidade sabe que ele voltou. Todos são convidados a ouvir.
As trombetas também ecoam a trombeta de Dap no capítulo 7, que convocou os cavaleiros para a batalha. Agora, convocam os anciãos para o testemunho.
---
4. A convocação dos anciãos
Yan não conta sua história a qualquer um. Convoca os anciãos — as autoridades, os sábios, os líderes da comunidade.
Este gesto é significativo. Yan busca o reconhecimento oficial de sua jornada. Quer que os guardiões da tradição validem o que ele viveu.
Os anciãos ouvem. Não há registro de que duvidem ou questionem. A história de Yan é aceita como verdadeira.
---
5. A narrativa completa
Yan narra "o máximo de detalhes de sua jornada de guerreiro". Não esconde nada: a fuga, o anjo, a carpa, o Bem-te-vi, as maçãs, o resgate.
O testemunho público é a última etapa da jornada. Não basta ter vivido; é preciso contar. A história precisa ser transmitida para que não morra com quem a viveu.
Os anciãos, ao ouvirem, tornam-se também guardiões da memória.
---
6. O reconhecimento do chefe
Após a narrativa, o chefe da comunidade faz um anúncio solene:
"Anunciou o chefe que Yan foi retirado à força de sua terra ainda como criança, mas que retornava aos vinte e quatro anos como um verdadeiro e nobre índio. Primeiro, por ter sobrevivido. Segundo, por ter resgatado seus irmãos. A alegria de seu povo estava no terceiro fato: retornara à terra de Jadar com uma esposa e um filho nas mãos. Nem mesmo o sangue de mil roubadores será tão valioso quanto cumprir a primeira ordem dada por Deus aos homens: 'Crescei e multiplicai-vos'."
O chefe enumera os três feitos de Yan:
1. Sobreviveu — à fuga, à jornada, aos perigos
2. Resgatou os irmãos — cumpriu sua missão
3. Retornou com esposa e filho — garantiu a continuidade
O terceiro feito é o mais importante para a comunidade. Yan não apenas sobreviveu e salvou; ele prosperou, constituiu família, assegurou o futuro.
O rito de passagem dos 21 anos, que Yan não pôde celebrar, é agora validado aos 24. Ele é oficialmente reconhecido como "verdadeiro e nobre índio".
---
7. O contraste com "o sangue de mil roubadores"
O chefe repete a frase do primeiro capítulo: "Nem mesmo o sangue de mil roubadores será tão valioso quanto cumprir a primeira ordem dada por Deus".
A repetição não é acidental. A frase, que antes se aplicava a Jin, agora se aplica a Yan. O ciclo se completa: o pai cumpriu o mandato; o filho também.
A violência (sangue de roubadores) é nada comparada à vida (crescei e multiplicai-vos). Yan é a prova viva dessa verdade.
---
8. O que esta peça ensina sobre reconhecimento comunitário
O retorno com trombetas oferece lições fundamentais:
Primeiro, o reconhecimento público é importante. Yan precisava que sua comunidade validasse sua jornada.
Segundo, a invisibilidade pode ser superada. Yan, que partiu como ninguém, volta como alguém.
Terceiro, o rito de passagem pode ser cumprido mesmo de forma não convencional. Yan não celebrou aos 21, mas é reconhecido aos 24.
Quarto, a comunidade celebra a vida, não apenas a sobrevivência. O terceiro feito de Yan — esposa e filho — é o mais celebrado.
Quinto, a tradição se perpetua. A frase do pai ecoa no filho.
---
9. Conexões com o restante da obra
O retorno com trombetas dialoga com outros momentos:
· A trombeta de Dap convocou os cavaleiros para a batalha
· As trombetas de Yan convocam os anciãos para o testemunho
· A frase do chefe ecoa a reflexão do narrador no primeiro capítulo
· O rito de passagem anunciado no início se cumpre no final
A obra se fecha em um belo arco de conclusão.
---
10. O que esta peça forma no leitor
O retorno com trombetas é uma peça formativa sobre a importância do reconhecimento comunitário.
Forma no leitor a compreensão de que a jornada individual precisa, em algum momento, ser compartilhada.
Forma a alegria de ver a invisibilidade superada pelo reconhecimento.
Forma a valorização dos ritos de passagem e da tradição.
Forma a certeza de que a vida que continua é mais valiosa que a violência.
Forma a esperança de que, no final, todos possam ter seu retorno celebrado.
---
11. Considerações finais
Yan partiu como uma criança ensacolada, ignorada, invisível. Voltou como um guerreiro, ao som de trombetas, convocando os anciãos, narrando sua história.
O contraste não poderia ser maior. O que era invisível tornou-se visível. O que era ignorado tornou-se celebrado. O que era desordem tornou-se ordem.
O rito de passagem, que a violência tentou impedir, cumpriu-se de forma ainda mais gloriosa. Yan não apenas viajou e voltou; ele sobreviveu, resgatou, prosperou.
Os anciãos o ouvem. O chefe o proclama. A comunidade o acolhe.
A jornada terminou. Mas a história, agora, pertence a todos.
---
Referências
· PESCADOR, Pedrim. O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan. Vila Velha: edição do autor, 2024.
· VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Petrópolis: Vozes, 2011.
---
Sobre o autor: Pedro Henrique Serrano Léllis, autor do livro em colaboração humano-IA, é biólogo (UVV/ES, 2022) e escritor capixaba. Sua obra inaugural, escrita durante período de internação e distribuída gratuitamente, reflete sua formação científica, sua fé e seu compromisso com causas sociais, especialmente a defesa de órfãos e vulneráveis.