#ENTRE7_FAZENDEIROS — Os bandidos como fazendeiros anônimos: a mentira como identidade
Análise da falsa fachada dos criminosos na obra de Pedrim Pescador
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Resumo
Este artigo analisa a passagem do sétimo capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan", de Pedrim Pescador, em que os bandidos, ao serem abordados por Dap, apresentam-se como "fazendeiros anônimos" que se dedicam à criação de porcos. Investiga-se o significado desta mentira como tentativa de normalizar o crime, a escolha deliberada da figura do porco (animal associado à impureza em diversas tradições), a fragilidade da fachada que rapidamente se desfaz diante de perguntas simples, e a função narrativa deste diálogo como preparação para o confronto final.
Palavras-chave: fazendeiros; porcos; mentira; identidade falsa; impureza; bandidos; Pedrim Pescador.
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1. Introdução: A porta da mentira
No sétimo capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso", Dap e Yan chegam à mina de sal disfarçados de compradores de escravos. O diálogo que se segue é uma peça de teatro em miniatura, onde cada palavra é uma tentativa de despistar ou de revelar:
"Viemos de uma terra distante e soubemos que vocês tem escravos para vender. (Disse Dap).
\- Não há escravos aqui, somos fazendeiros anônimos que se juntaram nessa terra para lavrar porcos."
Esta é a mentira que os bandidos escolhem para si. Não se apresentam como criminosos, não se apresentam como sequestradores, não se apresentam como assassinos. Apresentam-se como fazendeiros anônimos. Gente comum, trabalhadora, que se dedica à criação de porcos.
A fachada é frágil, mas reveladora. Este artigo investiga o significado desta escolha, o simbolismo do porco, e a rápida dissolução da mentira sob o peso da lógica.
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2. "Fazendeiros anônimos": a tentativa de normalização
A expressão "fazendeiros anônimos" é cuidadosamente escolhida. Ela evoca:
· Trabalho honesto — fazendeiros são vistos como pessoas do campo, trabalhadores, provedores
· Anonimato — não buscam fama, apenas vivem sua vida simples
· Comunidade — juntaram-se para lavrar, sugerindo cooperação, união de esforços
É a imagem oposta de bandidos sanguinários que matam pais na frente dos filhos e escravizam crianças.
Os bandidos querem ser vistos como normais. Querem que Dap e Yan aceitem a história e vão embora. Sabem que a verdade (escravos, sequestro, assassinato) não seria aceita, então constroem uma fantasia de respeitabilidade.
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3. A escolha do porco: impureza e ironia
Os bandidos escolhem dizer que criam porcos. Por que porcos e não gado, ou ovelhas, ou galinhas?
O porco, em diversas tradições, é um animal associado à impureza. Na tradição judaica, é considerado imundo, não adequado para consumo. Na simbologia popular, o porco é associado à sujeira, à gula, à falta de vergonha.
Há uma ironia profunda aqui: os bandidos, ao escolherem o porco como sua fachada, estão, sem saber, revelando algo sobre si mesmos. Eles se escondem atrás de um animal impuro, mas a impureza é deles, não do animal.
Dap perceberá a inconsistência e a usará contra eles.
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4. A fragilidade da mentira: o teste da lógica
Dap não aceita a história passivamente. Ele testa:
"Me vende um porco então.
\- Não temos porcos.
\- Vocês têm galinha então? Ou vocês venderam os porcos tudo?
\- Vendemos todos os porcos, ontem, para um forasteiro que passou aqui por perto.
\- E cadê o dinheiro?"
A mentira começa a desmoronar. Primeiro, dizem que criam porcos, mas não têm porcos para vender. Depois, inventam que venderam tudo ontem. Mas quando Dap pergunta pelo dinheiro, não têm resposta.
A fragilidade da mentira é exposta pela lógica mais simples. Se criam porcos, têm porcos. Se venderam, têm dinheiro. Não tendo nem uma coisa nem outra, a fachada cai.
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5. A acusação: "Vocês são compradores de escravos ou assaltantes?"
Percebendo que a conversa não convence, os bandidos mudam de tática:
"Vocês são compradores de escravos ou assaltantes? Por que se vocês não sabem nós estamos fortemente armados e somos destros na luta."
Agora a máscara cai completamente. A pergunta revela que eles sabem que Dap e Yan não são compradores de escravos — porque eles é que são os escravizadores. E a ameaça ("estamos fortemente armados") mostra sua verdadeira natureza.
Dap, então, aplica o golpe final:
"Fazendeiros anônimos são pacíficos e não andam armados. Quero comprar tocinho de porco."
A lógica é implacável: se vocês são fazendeiros, por que estão armados? Se criam porcos, onde está o produto? A fachada não resiste ao confronto com a realidade.
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6. A escalada: focinho, banha e o grito final
Dap continua:
"Quero comprar tocinho de porco.
\- Não temos.
\- Focinho?
\- Não temos.
\- Banha de porco vocês devem ter!
\- Não temos!"
Cada pergunta expõe mais a mentira. Fazendeiros de porcos têm tocinho, têm focinho (aproveitado em diversas preparações), têm banha (essencial para cozinhar). A ausência de tudo isso é a prova de que não há porcos, não há fazenda, não há anonimato — há apenas crime.
Dap finalmente explode:
"Não é possível, como vocês cozinham se porcos só são lavrados para usar sua gordura, já que sua carne é imunda e ninguém come essa p*&%? Tá estranho e eu não estou gostando nada disso. Cadê os escravos?"
O grito final — "CADÊ OS ESCRAVOS?" — é o momento em que a mentira morre e a verdade se impõe.
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7. O que esta peça denuncia
A cena dos "fazendeiros anônimos" é uma denúncia em múltiplas camadas:
Denuncia a tentativa do crime de se normalizar — os bandidos querem ser vistos como trabalhadores comuns, não como o que realmente são.
Denuncia a fragilidade da mentira — por mais elaborada que seja, a mentira não resiste à lógica e à persistência.
Denuncia a cumplicidade social — quantos "fazendeiros anônimos" existem por aí, escondendo crimes atrás de fachadas respeitáveis?
Denuncia a exploração — os porcos são apenas uma metáfora; os verdadeiros explorados são os escravos na mina.
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8. O que esta peça ensina sobre verdade e mentira
A cena oferece lições fundamentais:
Primeiro, a mentira exige manutenção constante. Cada pergunta nova é um risco de exposição.
Segundo, a verdade tem consistência. Dap pode perguntar de várias ângulos porque a verdade é coesa; a mentira, não.
Terceiro, o mal tenta se disfarçar de bem. Os bandidos querem parecer fazendeiros, não criminosos.
Quarto, a persistência desmascara a farsa. Dap não aceita a primeira resposta; insiste, pergunta, testa.
Quinto, a lógica é aliada da justiça. Perguntas simples expõem contradições que o crime não consegue esconder.
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9. Conexões com o restante da obra
A cena dos fazendeiros anônimos dialoga com outros momentos de revelação:
· A insígnia de Dal Vidar não foi reconhecida, mas o rosto sim — a verdade sempre aparece
· A mentira do maltrapilho sobre o sal também foi exposta pela lógica
· Os 77 cavaleiros são a verdade armada que confronta a mentira
· A trombeta de Dap é o som que anuncia que a farsa acabou
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10. O que esta peça forma no leitor
A cena dos fazendeiros anônimos é uma peça formativa sobre a importância da verdade e da persistência.
Forma no leitor a desconfiança saudável diante de fachadas muito perfeitas.
Forma a coragem de perguntar, insistir, testar.
Forma a compreensão de que o mal tenta se disfarçar, mas sempre deixa rastros.
Forma a confiança na lógica como instrumento de justiça.
Forma a certeza de que, no final, a verdade prevalece.
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11. Considerações finais
Os bandidos queriam ser vistos como fazendeiros anônimos. Criadores de porcos. Gente simples do campo.
Mas não tinham porcos, não tinham tocinho, não tinham banha, não tinham dinheiro. Tinham apenas armas, escravos e uma mentira frágil que não resistiu a algumas perguntas.
Dap desmontou a farsa com lógica simples. E quando a mentira caiu, a verdade apareceu: uma cratera, escadas de madeira, 39 escravos, 6 crianças.
Os fazendeiros anônimos eram, na verdade, assassinos e escravizadores. Mas já era tarde para esconder. Os cavaleiros já estavam chegando.
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Referências
· PESCADOR, Pedrim. O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan. Vila Velha: edição do autor, 2024.
· BÍBLIA. Levítico 11 (a proibição do porco).
· ARENDT, Hannah. Verdade e Política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
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Sobre o autor: Pedro Henrique Serrano Léllis, autor do livro em colaboração humano-IA, é biólogo (UVV/ES, 2022) e escritor capixaba. Sua obra inaugural, escrita durante período de internação e distribuída gratuitamente, reflete sua formação científica, sua fé e seu compromisso com causas sociais, especialmente a defesa de órfãos e vulneráveis.