#ENTRE1_HONRA — Honrar os mortos, mesmo os desconhecidos
#ENTRE1_HONRA — Honrar os mortos, mesmo os desconhecidos
Análise de um gesto fundador na obra de Pedrim Pescador
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Resumo
Este artigo analisa a cena inaugural do conto "O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan", de Pedrim Pescador, na qual o personagem Jin encontra um corpo desconhecido e decide prestar-lhe honras fúnebres. A análise investiga o significado cultural, ético e narrativo desse gesto, suas raízes antropológicas e suas consequências trágicas. Argumenta-se que a cena funciona como fundadora da identidade moral do protagonista Yan e como chave interpretativa para toda a obra.
Palavras-chave: honra fúnebre; antropologia da morte; ética da bondade; Pedrim Pescador; literatura brasileira contemporânea.
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1. Introdução
A cena que abre o primeiro capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso" é, aparentemente, simples: um homem encontra um cadáver e decide enterrá-lo com dignidade. Essa simplicidade, porém, esconde camadas de significado que remontam às origens da civilização. O gesto de Jin — lavar o corpo, envolvê-lo em lençóis, tentar localizar a família, proferir uma bênção — é um dos atos mais antigos e universais da humanidade: o cuidado com os mortos.
Este artigo propõe examinar essa cena em três movimentos: primeiro, suas raízes antropológicas e culturais; segundo, sua função narrativa na obra; terceiro, suas implicações éticas para o leitor.
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2. O cuidado com os mortos como universal cultural
A arqueologia e a antropologia ensinam que o enterro dos mortos é um dos marcadores mais antigos da humanidade. Neandertais já sepultavam seus mortos há mais de 50 mil anos. Em todas as culturas, em todos os continentes, os vivos cuidam dos que partiram.
O historiador Philippe Ariès, em sua clássica obra "História da Morte no Ocidente", demonstra que os ritos fúnebres não são apenas protocolos sociais, mas expressões profundas da relação dos vivos com os mortos e com o sagrado. Enterrar alguém é afirmar que aquela vida teve significado, que a pessoa merece respeito, que a comunidade não a abandona nem depois da morte.
Na tradição judaico-cristã, essa obrigação é ainda mais explícita. O livro de Tobias, no Antigo Testamento, narra como o protagonista arrisca a vida para enterrar os mortos de seu povo, desafiando a proibição do rei. Tobias se torna modelo de piedade exatamente por isso: honrar os mortos é honrar a Deus.
Jin, ao encontrar o corpo de Dal Vidar, age dentro dessa tradição milenar. Não pergunta se o morto merece. Não calcula riscos. Ele simplesmente faz o que deve ser feito.
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3. A função narrativa da cena
Na economia do conto, a cena da honra fúnebre desempenha pelo menos três funções cruciais.
Primeira: apresentar o caráter de Jin. O leitor conhece Jin através de seu gesto. Antes de sabermos que ele é próspero, que construiu a própria casa, que viajou para aprender ofícios, sabemos que ele é um homem que honra desconhecidos. Isso estabelece imediatamente sua integridade moral e torna sua morte posterior ainda mais trágica.
Segunda: desencadear a tragédia. A bondade de Jin é a causa direta de sua morte. Se ele tivesse ignorado o corpo, os bandidos não saberiam quem matou Dal Vidar. Jin morre porque fez o bem. Essa ironia trágica é o motor que move toda a narrativa.
Terceira: semear o caráter de Yan. Yan, o filho mais velho, ajuda o pai a lavar o corpo. Ele vê o exemplo. Mais tarde, quando estiver sozinho e precisar decidir entre a vida e a morte, entre o certo e o fácil, a memória do pai será seu guia. A honra de Jin se transmite por testemunho, não por discurso.
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4. A ironia trágica e suas implicações éticas
A morte de Jin coloca uma questão incômoda: se a bondade pode ser punida com a morte, ainda assim devemos praticá-la?
A obra não responde diretamente, mas oferece pistas. Yan não se torna amargo. Ele não conclui que a bondade do pai foi um erro. Pelo contrário, ele internaliza o exemplo e age com a mesma integridade quando chega sua hora.
O filósofo alemão Immanuel Kant, em sua "Fundamentação da Metafísica dos Costumes", argumenta que a boa vontade é boa em si mesma, independentemente de suas consequências. Jin age por dever, não por cálculo. Sua ação tem valor moral justamente porque não leva em conta o resultado.
Essa perspectiva ilumina a cena: o valor do gesto de Jin não está no que ele produz (sua morte), mas no que ele é (um ato de humanidade). A tragédia não anula a bondade; ao contrário, a torna mais visível.
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5. O gesto que forma o leitor
Uma das características mais marcantes da obra de Pedrim Pescador é sua intencionalidade formativa. O autor não quer apenas contar uma história; quer formar quem lê.
A cena da honra fúnebre é exemplar nesse sentido. Ela coloca o leitor diante de uma pergunta prática: o que você faria no lugar de Jin? E, mais importante: o que você tem feito quando encontra "corpos" — pessoas ignoradas, marginalizadas, esquecidas?
O gesto de Jin não é apenas um episódio do passado ficcional; é um convite ao presente do leitor. Quantas vezes deixamos de ajudar porque calculamos o custo? Quantas vezes desviamos o olhar para não nos envolvermos?
Jin não desviou. Pagou o preço. Mas seu gesto permanece — na memória de Yan, nas páginas do livro, na consciência de quem lê.
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6. Considerações finais
A cena inaugural de "O Bem-Te-Vi do Paraíso" é muito mais que um incidente narrativo. É uma síntese dos valores que a obra pretende transmitir: a honra, a bondade incondicional, a transmissão do exemplo, o risco de fazer o bem.
Ao analisar esse fragmento, percebemos que Pedrim Pescador não escreve apenas para entreter. Ele escreve para formar. Sua literatura é um exercício de construção moral, um convite a que o leitor se pergunte: que tipo de pessoa quero ser?
Jin respondeu a essa pergunta com seu gesto. Cabe a nós responder com nossa vida.
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Referências
· ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
· KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007.
· PESCADOR, Pedrim. O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan. Vila Velha: edição do autor, 2024.
· VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Petrópolis: Vozes, 2011.
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Sobre o autor: Pedro Henrique Serrano Léllis, autor do livro em colaboração humano-IA, é biólogo (UVV/ES, 2022) e escritor capixaba. Sua obra inaugural, escrita durante período de internação e distribuída gratuitamente, reflete sua formação científica, sua fé e seu compromisso com causas sociais, especialmente a defesa de órfãos e vulneráveis.
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