PPES_01_BTV - Capítulo 06 - O Vilarejo

 Capítulo 06 – O Vilarejo

Yan acordou aquecido pelos raios do sol. A esta altura da sua jornada do guerreiro indígena, suas vestes já estavam praticamente toda revestida com penas pretas e brancas.

Ergueu-se, ainda sentado, espreguiçou. Repousou as mãos sobre o colo, ainda vagaroso por ter terminado de despertar. Ainda recobrando a consciência, olhou para sua mão. Não tinha percebido que segurava uma maçã de ouro. 

Surpreso, Yan admirou a fruta, olhando seus detalhes e a perfeição do seu formato, do tamanho real que é comercializada, adornada também por um cabinho com uma linda folha.

- Com esta maçã de ouro que o próprio Deus me deu eu vou pagar o resgate dos meus irmãos.

Olhou para o lado e consigo ainda estavam suas armas de caça. Água havia em abundância pela região, então pensou onde encontraria sua próxima refeição. Levantando-se viu o reflexo do sol em algo brilhante no meio da grama. Indo ver o que reluzia, encontrou outra maçã de ouro e vibrou! Lembrou-se do ditado árabe que dizia que se uma coisa acontecia uma vez, então ela só aconteceu, infortúnio do destino. Mas se acontecesse uma segunda vez, deveria ter a certeza de que a terceira aconteceria e não tardaria em acontecer. Procurou Yan, então, pela terceira maçã. Rodeando a grama alta circundante à macieira, não demorou a encontra-la.

- Onde tem uma tem duas. Se tiver duas então tem três. Quem sabe não há mais maçãs para eu recolher?

E revistou macieira em redor, recolhendo ao total oito maçãs de ouro!

- Uma maçã para cada irmão e ainda sobram duas para mim. Eu vou precisar de ouro para bancar minha viagem até meus irmãos. Mas eu não posso usar uma maçã inteira só pra comprar cavalos e a outra maçã para o alimento. Vou precisar destrinchar minhas duas maças em pedaços menores e administrar essa riqueza, mas uma coisa eu acredito: os sequestradores com certeza vão aceitar a troca de uma maçã para cada irmão meu: Lee, Jade, Levi, Hill, Anny e Lun. Espero que estejam vivos. Ó Deus piedoso que me trouxe até aqui... se não fossem tantas maçãs eu poderia acreditar que algum lhes sucedera. Mas sendo oito maçãs acredito que estão vivos. Talvez estejam feridos, mas se era para trabalharem como escravos de sol-a-sol, domingo-a-domingo, não faz sentido os criminosos terem ferido-os. Quero acreditar que estão bem. E se eles nos trataram cordialmente durante a viagem, nos alimentando, talvez as crianças não estejam passando fome. Mas eu não posso atravessar estas montanhas como fiz para chegar até aqui. Vou seguir o curso do rio até a planície e com certeza eu vou encontrar um vilarejo e lá eu me viro.

Montou novamente uma balsa, dessa vez maior e mais flutuante, portanto mais estável e com menos chance de afundar. Procurou e encontrou uma árvore que expelia muita resina de modo a impermeabilizar sua balsa.

Enquanto ela secava ao sol, na beira do rio, reencontrou as piscinas térmicas de vapores condensantes. Despiu-se e entrou na água. Relaxou e glorificou a Deus. O estômago roncou mas ele aproveitou a água quente e a paz que transbordava o seu ser. A solução para seus problemas estava na mão. Era tanto ouro que em parte até tremia e arrepiava, mas estava em paz.

Providenciou seu almoço. Munido de seu arco-e-flecha, abateu um frango d’angola. Dessa vez, entretanto, decidiu assá-lo e conseguiu fazer fogo, chocando as duas pedras de seixo que recolhera após fugir dos sequestradores.

Mas a aventura ainda não terminou. Perguntou-se Yan se ela estava apenas começando. Pensativo, introspectivo, temente a Deus e, reverente, orou pedindo sabedoria e livramento. Por onde quer que fosse, ninguém poderia saber que trazia consigo quase cinco quilos de ouro puro.

Suas vestes, quase cem por cento cobertas de penas pretas e brancas, lhe conferiam um visual de um sacerdote xamanista. Precisava lascar duas maçãs em pedaços menores para ir gastando aos poucos durante sua viagem às tão longínquas minas de sal.

Naquela época e naquela região a escravidão era tida como uma prática desonrosa e abominável. Possivelmente ninguém sabia onde estavam localizadas as minas de sal. Mas Yan tinha em mente alguém que poderia informa-lo e precisaria contratá-lo. Também não poderia ir sozinho, precisaria de reforços.

Ingressou com sua balsa no leito do rio e deixou a correnteza leva-lo. Ficou só de calça, afiando a ponta de sua lança. Nada mais teria para fazer a não ser esperar. Louvou a Deus e o glorificou novamente, entoando o seguinte hino:

- Espírito... Espírito... Espírito Santo de Deus... Vem controlar todo meu ser... Vem dirigir o meu viver... o meu pensar... o meu falar... o meu sentir... o meu agir... Espírito! 

Levantou um clamor:

- Pai amado e Pai querido, a Ti invoco, ó Deus Altíssimo, que Te assentas acima de todas as estrelas e tronos... Como falar qualquer outra coisa para Ti sem Te agradecer primeiro pela provisão que procede de Ti? Em nenhuma das histórias contadas pela minha mãe, jamais foi retratada essa do Bem-Te-Vi do Paraíso, maçãs de ouro e um rei de espada mágica. Ninguém nunca vai acreditar nisso que estou vivendo. Acho que vou chorar.

E Yan chorou como um clamor, verdadeiro clangor de trombeta, tão alto som de seu chorou. Chorou tanto que sorvia as suas abundantes lágrimas, quentes e salgadas. Perdeu seus pais e também seus irmãos. Ainda temia por eles por ter fugido e relembrou do seu salto no penhasco como quem salta no escuro e que poderia ter morrido em sua queda, mas que ate ali em tudo tinha sido mais que vencedor. Ebenezer. Já perdera o cálculo de quantos dias estava perdido nas matas e penhascos e riachos. A esta altura do campeonato, seus irmãos já deviam estar nas minas de sal, trabalhando feito escrevos.

Debruçou-se sobre a borda da balsa e viu seu reflexo no lago. Yan era parecido com seu pai, porém de pele bem clara; desta vez escurecida devido à exposição ao sol desses dias de jornada.

- É, estou queimado. Preciso encontrar um vilarejo e lá vou comprar um cavalo, vestes novas, e uma boa refeição, de preferência numa hospedaria e ninguém pode saber que carrego ouro.

Os dias se passaram e se tornaram iguais: pescar durante o dia, limpar os peixes, acampar à noite e comer carne assada, sem sal nem alecrim. Para onde este rio o levaria? Diferente de muitos rios, por ser de vale, mantinha-se estreito e raso. Transparente, com um leve tom de azul, era possível ver peixes, tartarugas, cobras aquáticas transitando. Foram dias tranquilos e de sossegada paz. Teve uma excelente oportunidade de falar com Deus e assombrosas experiências de ouvir Sua voz, que lhe dizia:

- Filho amado, sou teu Adonai. Sou Eu que te escolhi e te atraí com meus laços de amor. Vida pediste e te concedi. Por que me amaste e sem que soubesses, seguiste o exemplo de Meu Filho, que ainda não nasceu e dará a sua vida por muitos. Quem nele crer não será condenado e terá a vida eterna. Estou orgulhoso de você e estarei todos os dias contigo. Continue buscando minha face a minha Glória que eu vou te encher com meu Espírito Santo.

- Exalta, Senhor, a Tua Destra. Glorifica o Teu Nome em minha vida e Te bendirei, eternamente, no recôndito do Teu Santuário! Hosana! (Respondeu Yan ao Senhor).

Deus é maravilhoso e Sua misericórdia dura para sempre. Livra o justo da opressão, arregaça as cadeias que aprisionam os viciados, levanta o homem do pó, o retira do lixo e o faz se assentar entre os príncipes.

Quando, de repente, deitado em sua balsa, notou no límpido céu um rastro de fumaça e sentiu seu cheiro. Um vilarejo se aproximava e Yan muito se alegrou. Colocou sua sacola nas costas e preparou-se para desembarcar no píer que adentrava o rio. Vendo que havia várias embarcações estacionadas, Yan pensou ser uma comunidade pesqueira.

Era um vilarejo pequeno, chamado Niree. De fato, a pesca era a atividade principal, mas havia outras oficinas como marcenaria, metalurgia, hospedarias e tabernas. Aparentemente era um povoado próspero, pois a maioria das pessoas estavam bem vestias e ostentando joias nos pulsos, dedos e pescoços. Yan sentiu-se ridículo pelas suas vestes, rasgadas e emplumadas. As pessoas olhavam para ele estranhando-o. Estava tão mal vestido que entendeu eu dificilmente alguém cogitaria ter ele riqueza alguma.

Perambulou pelas principais ruas do vilarejo, que era todo pavimentado por rochas planas, diferente de Jadar que só tinha uma rua pavimentada, com outro material. Pelas informações que lia nas placas dos comércios, o seu idioma era bem parecido, as palavras mudavam só no final, como restaurante e restaurade. Não quis interpelar ninguém, preferiu procurar sozinho por uma loja de artesanato.

Interessou-se por uma lojinha que exibia uma estátua de touro em tamanho natural, com diversos pássaros entalhados na madeira. Olhou para a vitrine e viu cordões e anéis de ouro. Estava de frente a uma ourivesaria cujo nome era Eliel. Dentro do estabelecimento, várias prateleiras de madeira-de-lei e várias cabeças de animais de caça taxidermizados, ou seja, empalhados. 

Ao entrar, um sininho tocou, e um senhor de idade, careca, com uma lente de quartzo pendurada no pescoço o olhou.

- Pois não, meu jovem, em que posso ajudar? (E levantou-se da cadeira de balanço para atender Yan, não sem antes olhá-lo de cima a baixo e concluir que de fato se tratava de um forasteiro).

- Quem é que faz estas joias?

- O senhor gostou de alguma? Fique a vontade para experimentar.

Tinlin, o sino tocou novamente, indicando que mais alguém entrara no recinto.

- Está tudo bem aqui, senhor Frish? (Perguntou um homem negro, alto e forte, vestido de sobretudo de couro preto, facão na mão e um chapelão na cabeça).

- Por enquanto sim, Dap. Mas pode me fazer companhia. Como é o seu nome, jovem?

- Meu nome é Yan e venho das terras de Jadar.

- Oh, que bom, terra de Jadar. Conheço bem aquelas terras e sei que é um povo muito bom. Não se preocupe com ele, pois Dap é meu segurança. Novamente pergunto, em que posso ajudar?

- Bem, com a presença do seu segurança eu me sinto um pouco mais seguro. Preciso da sua ajuda. Garimpei uma pepita de ouro em uma montanha aqui perto e gostaria de fazer um anel para dar de presente para minha mãe.

- Mas em nossas montanhas não há ouro. (Disse o senhor Frish). Somente rubis, esmeraldas e safiras, que pertencem à mesma família de gemas preciosas, porém foram exploradas até acabar. Fazem mais de quinze anos que o garimpo fechou. Onde você encontrou essa pepita? Posso vê-la para avaliar se é mesmo ouro ou se é pirita, também conhecida como ouro-de-tolo?

Yan olhou para o velho, olhou para o segurança, respirou fundo e, mesmo receoso, tirou sua bolsa das costas, pô-la no chão e de dentro dela retirou uma maçã de ouro, estendendo-a para o senhor Frish. Arregalando os olhos e abrindo sua boca, o senhor colocou sua lente nos olhos e disse:

- Uma maçã de ouro? Meu Deus, que maravilha! (Colocou as mãos na cabeça e pensou um pouco). Fazem exatamente trinta e sete anos que não vejo uma dessas! Minha filha não era nem nascida! Por acaso você ganhou do Bem-Te-Vi do Paraíso?

Yan acenou com a cabeça, sinalizando um sim.

- Yasmin, venha aqui ver isso! Uma maçã de ouro do Bem-Te-Vi do Paraíso!

Imediatamente entrou no recinto uma jovem de média estatura, cabelos cacheados ruivos, de uma pele tão branca que parecia até rosada, lábios carnudos, olhos redondos cor-de-mel e luxuosamente vestida com um vestido azul, ornada com brincos, pulseiras multi-coloridas e um pingente de carpa dourada no pescoço.

- Eu ouvi Bem-Te-Vi do Paraíso?

Estendeu seu pai a mão em direção dela e ela veio ao encontro da maçã, não desviando o olhar dela por nem um segundo. Tomou-a em suas mãos e sentiu seu peso.

- Como é bela! E perfeita! Lisinha! E olhe essa folha, é tão, tão, tão...

- Bem entalhada! (Completou o velho Frish).

- Sim, entalhadíssima! E sinta seu peso! Aqui tem uns meio quilo! Será mesmo que é ouro puro? Quer dizer, a lenda é verdadeira então? E de quem é esta maça?

E olhou para o lado e viu Yan, com a barba por fazer, muito mal vestido e este, sem graça, sorriu. Pelo menos tem um sorriso bonito, pensou Yasmin.

- Onde a conseguiu?

- O Bem-Te-Vi do Paraíso me deu, num pé de maçã de ouro, na nascente deste rio. Ele me disse que quando desde do paraíso ele dá vida pra árvore e...

- Concede maçãs de ouro para jovens guerreiros que tem um coração puro, honesto e bom... (Completou o senhor Frish). Meu jovem, você é um garoto abençoado. Porque vai derreter a maçã para fazer um anel, se se você trabalhar aqui para mim eu te pago com muito mais do que um anel e você fica a maçã para sempre?

- Na verdade minha mãe morreu. E meus irmãos foram sequestrados, para trabalhar como escravos numa mina de sal. Quero pagar o resgate dos meus irmãos com o ouro desta maçã.

- Jovem, só o fato de você tê-la ganhado, eu sei que você é um rapaz bom. Você está com fome? Por favor, queira entrar em minha casa. A partir de agora você é meu convidado, você merece esta honra. Quer resgatar os irmãos sequestrados! Tem trinta e sete anos que eu não vejo uma dessa. E é a segunda vez que eu a vi na vida. Já posso morrer agora, pois sei que a lenda é real e olha que eu passei anos procurando a árvore, mesmo em momentos de dificuldade financeira e nunca a encontrei. (Disse o senhor).

- Eu cresci ouvindo esta história e no fundo no fundo sempre quis ter uma maçã de ouro pra mim. (Disse Yasmin). Até pedi para meu pai fazer uma pra mim, mas ele sempre me dizia pra gente não brincar com coisas sagradas. Por isso esculpiu este peixe, pois faz parte da história. Como é o seu nome?

- Yan, da terra de Jadar.

- Entre e venha jantar. Vou preparar um banho e roupas para você. Você está com fome? Pai, se eu fosse você eu fechava a loja, pois o dia de hoje já tá ganho! Faço das suas palavras, minhas: já posso morrer, pois agora eu sei que a lenda é real, mesmo não tendo visto o Bem-Te-Vi do Paraíso.

- Dap, meu amigo, vou fechar a loja. Por favor fique de guarda e não conte da maçã de ouro para ninguém. Peça ao seu irmão para fazer a vigília da noite. O inimigo é sujo e não podemos vacilar. Vou hospedar este jovem em minha casa hoje. Não só hoje, mas por uns dias, para cuidar dele. Até que possa partir, obrigado. 

Voltando-se para Yan, perguntou:

- Você bebe alguma coisa?

- Estou com sede.

- Estou falando de bebida alcóolica!

- Não, senhor, eu não bebo.

- Mas comigo você vai beber. (Então gritou o senhor Frish, pois sua filha entrara na residência aos fundos da loja): Yasmin! Aqueça o licor de anis-estrelado para mim e para este jovem. Como é o seu nome mesmo?

- Yan, da terra de Jadar.

- Sim, sim, eu sei. Da terra de Jadar. (Disse, fechando as cortinas da vitrine e trancando a porta de entrada não sem antes virar a plaquinha na qual estava escrito: aberto).

A noite foi longa. Yan se banhou, pôs vestes limpas e confortáveis, que deveriam ser o pijama do velho, calçou pantufas, o que adorou pois nunca tinha usado um calçado tão confortável e quentinho. Bebendo à beira da lareira, assentado em uma poltrona de couro altamente luxuosa, deslumbrado com a exibição de tantas outras cabeças de animais empalhados presos na parede e lustres dourados com milhões de cristais de quartzo pendulantes que refletiam trechos de luz para todos os lados e distribuíam pequenos arco-íris, resultado da refração da luz pelo formato losangular dos cristais suspensos.

Yan contou sua triste história e ainda que a língua deles divergisse em algumas palavras devido a variação étnica, todos conseguiram entender muito bem a história de Yan, que era interpelado e interrompido a toda hora pelo senhor Frish, que queria saber tudo nos mínimos detalhes.

- Agora me conte o que te disse o Bem-Te-Vi do Paraíso.

- Ele me contou a história de um rei que tinha uma espada mágica que o tornava invencível nas batalhas, mas que um ninja malvado o matou e o espírito da espada entrou no Bem-Te-Vi. Se eu tivesse uma gaiola, eu ia prendê-lo e ganhar dinheiro com ele exibindo-o para as pessoas mundo afora.

- Minha nossa! Você ia prender o bicho?

- Mas ele leu minha mente e disse que tem mais valor podendo voltar ao Paraíso do que preso numa gaiola. Se eu faço isso Deus ia me amaldiçoar!

- Yasmin! (Gritou o velho). Que cheiro bom é esse? Parece pão-de-quejo.

- Daqui a pouco fica pronto, pai! (Respondeu Yasmin, da cozinha).

Minutos depois Yamin trouxe uma bandeja com os pães e eles os apreciaram.

- Yan, o papo está muito bom, mas vamos falar de negócios. O que você pretende fazer com esta maçã de ouro? Por que da outra vez que ela veio até mim eu a derreti e cunhei cento e cinquenta e três moedas de ouro, pois pesava exatamente este peso em gramas. Já a sua maçã pesa pelo menos trezentos gramas. Dá pra fazer 300 moedas e com esse dinheiro você consegue financiar sua viagem e resgatar seus irmãos.

- Não, para resgatar meus irmãos eu vou usar as outras maçãs.

- Outras maçãs? (Perguntaram seu Frish e Yasmin ao mesmo tempo).

Yan levantou-se e pegou sua bolsa e começou a tirá-las. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito.

- Oito maçãs? P*&% que pariu, é ouro pra cara*&%! O outro cara só ganhou uma! Vamos derreter tudo!

- Não, vamos derreter duas. As outras seis serão para o resgate das crianças, pois tenho seis irmãos.

- Estou tão empolgado que eu começaria a trabalhar agora mesmo, mas eu já bebi muito hoje. Guarde suas maçãs. Nossa casa é pequena e não temos quarto para hóspedes, mas você pode dormir neste sofá em que estou. Yasmin, minha filha, pegue um cobertor para este rapaz... o ... Yan. Traga-me água também, meu amor, por favor, para eu não ter ressaca amanhã de manhã.

No dia seguinte, o senhor Frish acordou e acendeu o fogão à lenha. Estava feliz e jubilante pois havia encontrado outra maçã de ouro. E tendo Yan relatado sua história, confirmou em seu coração que elas são dadas para prover causas justas e nobres. Preparou o chá de hibisco com gotas de limão galego, o que considera como melhor chá do mundo, experimentara uma centena de sabores em suas viagens mundo afora, pois sempre foi muito próspero e empreendia longas viagens. Queria oferecer o que há de melhor para seu ilustre hóspede. Já estava no fim de sua vida e não teria mais outros trinta e sete anos de vida para ajudar o próximo peregrino abençoado.

Como se Deus falasse com ele, orquestrou uma manobra ainda maior. Vestiu-se bem, como de costume se arrumava para trabalhar. Pôs seu chapeuzinho panamá típico de quando sai pelo vilarejo, não abriu o comércio, pagou o serviço do vigilante noturno e foi conversar com o chefe da comunidade. Ao final da reunião, deu-lhe um cristal de ametista como forma de gratidão pela ajuda com que o líder se comprometera a ajudar.

Quando retornou para casa encontrou Yasmin conversando com Yan, ambos tomando café da manhã. Ela com a cara séria e Yan com lágrimas no rosto. Movido de grande empatia e íntima compaixão, abraçou o rapaz e o consolou, enxugando suas lágrimas com um lenço de seda fina.

Dando bom dia aos jovens, convidou Yan para pegar suas maçãs e subir para sua oficina no terraço.

- Quatro e vinte. Justamente a hora do chá. (E riu-se sozinho o velho Frish).

- Quatro e vinte como assim? (Indagou Yan).

- Quatrocentos e vinte gramas, exatamente cada maçã. Multiplicando por oito, dá três quilos, trezentos e sessenta gramas. São dez anos de trabalho, recebendo uma grama de ouro por dia. Deus abençoe. Que maravilha. Mas como vamos derreter duas, teremos oitocentas e quarenta moedas de ouro. Posso derreter?

- Derreta só uma. Quatrocentas e vinte moedas de ouro são suficientes. O senhor acha que com trezentas moedas eu banco a viagem? Assim eu te pago cento e vinte moedas por ter me ajudado.

O velho Frish sorriu e ficou vermelho.

- Não, não, meu filho. Não precisa me pagar. Deus já me deu tudo que preciso. Nunca passei fome na vida e tenho minha linda filha, que está com o futuro garantido, só falta encontrar um marido. Mas Deus proverá e eu espero que Ele não a leve para longe de mim.

Enquanto falava, o Senhor Frish pegou uma serrinha bem fina, forrou a gaveta de sua mesa de trabalho com um pedaço de couro e dividiu a maça em quatro pedaços, colocando-os dentro de recipientes de um material branco como porcelana e os inseriu dentro de um forno, para derreter.

Depois de derretidas, jogou o ouro líquido em quatro fôrmas que deixou o ouro no formato de velas. Com o auxílio de uma régua, riscou as finas barras de ouro de milímetro em milímetro, locais estes nos quais serrou precisamente, gerando quatrocentas e quatro moedas.

- Eu poderia coloca-las na forma para deixa-las cunhadas, como fazem na Babilônia, com a inscrição “Adorem Nabucodonosor” mas daria muito trabalho. O que nos importa por agora é que cada moeda tenha cerca de uma grama de ouro. Como eu já verifiquei algumas, não preciso pesar todas. Os outros dezesseis gramas que sumiram viraram pó, que se você observou bem eu varro com uma escova e junto para fazer outras joias e apetrechos para dar de presente para minha filha.

Yan levantou-se da cadeira e foi até a porta da oficina e gritou:

- Yasmin, sobe aqui!

- Veja, Yasmin, quantas moedas de ouro. Tome quatro de presente para você.

- Ai, que isso, fico lisonjeada. Vou aceitar por que sei que não vai fazer falta e acredito que você esteja me dando de coração. Muito obrigada, Lorde Yan.

- Lorde, eu? Quem me dera. Mas quem sabe eu seja, já que me tornei herdeiro da fazenda do meu pai? Será que um dia eu vou para Dubai?

De lá pra cá o senhor Frish e Yasmin se tornaram os consultores empresariais de Yan. Com papel e tinta na mão, listaram as coisas que o jovem de Jadar precisaria comprar para ir ao resgate de seus irmãos, lembrando que ele deveria ir à sua terra natal procurar seu informante, aquele mesmo maltrapilho que identificou o rosto do velho gordo, líder da facção.

Duas semanas depois, já nos domínios de Jadar, voltar para sua terra lhe trazia um misto de sentimentos e sensações. Sua aventura ainda não terminou e muitas incertezas afligiam seu coração. Encontrando-se com o sacerdote de sua congregação, foi levado por ele ao delegado, que ficou estarrecido com o que sucedera à família de Yan e que não suspeitava de nada pois Yan vivia afastado alguns quilômetros do centro, no final de uma estrada deserta e vinha poucas vezes ao vilarejo, ninguém sentira sua falta.

Revelou Yan ao delegado seu plano de resgate e lhe mostrou algumas moedas de ouro, mas manteve em segredo a respeito das outras maçãs. De posse das características do maltrapilho, o delegado ordenou aos seus homens que o procurassem em todo o vilarejo e o trouxessem com urgência. Como este resistiu ao ser pego, apanhou bastantes dos homens zeladores da lei.

-É ele mesmo. Ainda usa a mesma capa e o mesmo par de chinelos trocados. (Reconheceu-o Yan).

- Eu não fiz nada, seu guarda. Eu sou inocente, nunca vi esse menino antes.

- Foi você que viu o chefe daqueles homens a cavalo, que estava na carroceria do meu pai.

- Ah sim, do Dal Vidar, venerado chefe.

- Então é você mesmo, seu safado. (Disse o delegado dando um soco bem forte nas costelas do maltrapilho, deixando-o sem ar). Onde estão as minas de sal?

- Minas de sal? Que minas de sal? Eu nem uso sal na comida, só no cu-de-burro, que é cachaça, limão e sal, mas tem que ser pouco, pois sou hipertenso. Ai, ai, ai... (Choramingou novamente e reclamou de outro soco que tomou do delegado, pois o irritou ao tentar manipulá-lo).

- Eu tenho moedas de ouro para você, se você resolver cooperar. Aqui tem uma, pra começar. Abra a mão. E aí, o que acha? De onde saiu essa tem muito mais. (Exibiu o delegado um saquinho de couro com outras moedas).

O maltrapilho deu uma leve mordida na moedinha.

- Eu quero seiscentas moedas de ouro para levar vocês lá.

O delegado deu um tapa na cara dele e perguntou:

- Você está achando que tem algum milionário aqui? São quantos dias de viagem até lá?

- Quarenta e cinco, exatamente. Nem rápido nem devagar, para não cansar os cavalos.

- Então vou te pagar quarenta e cinco medas. (Sugeriu o delegado).

- Sessenta moedas, pô. É dez por cento do que inicialmente te pedi.

- Pensando por esse lado, estou tendo noventa por cento de desconto. É um nóia mesmo, não pode ver dez conto. Prendam-no.

- Não me prendam, não! (E nisso foi agarrado pelos outros guardas e arrastado para cela).

- Pelo Menos me compra uma birita e um cigarro, que eu tô de cara, só a abistinência?!

- Vou comprar e você vai colaborar com a gente. Tome aqui seis moedas, para te garantir que somos homens de palavra. Me devolve duas, por que uma eu já te dei e a outra eu vou comprar sua bebida.

- Não estou achando a primeira moeda que você me deu.

- Maravilha! É bom que com ela eu compro bebidas para os meus funcionários, pois eles também merecem. Já volto com seu trem e um pão com água para você.





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