PPES_01_BTV - Capítulo 04 - A Nascente
Capítulo 04 – A Nascente
O primeiro desafio do dia seguinte, ao despertar, certamente seria atravessa o rio de águas azuis, não pela distância entre uma margem e outra ou pela sua correnteza e sim pelo fato de sua baixíssima temperatura. Temendo sofrer de hipotermia, Yan concluiu que deveria pôr a mão na massa.
Adentrou-se na mata à esquerda do rio procurando por troncos finos de árvores em desenvolvimento e cipós para montar uma pequena balsa flutuante na qual pudesse navegar, instando a cada passo que seu esforço não seria em vão. Que faria de tudo para regressar a Jadar são e salvo e trazendo consigo seus irmãos, a cada passo, suspiro, olhada e golpe, recitando cânticos de adoração e oração ao Deus criador de céus e terra para que cuidasse de seus irmãos e que sobre eles não fosse retaliado a injúria com que devem ter ficado os cavaleiros devido ao fato de sua fuga.
Missão dada missão cumprida e Yan conseguiu atravessar o rio, não deixando de aproveitar para pescar alguns peixes para levar alimento consigo para além da montanha à leste.
Penetrando na floresta de coníferas, contentou-se com o fato de ser uma vegetação aberta, espaçadas as árvores umas das outras, sendo o solo coberto por folhas de diversos matizes de amarelo, laranja, rúbeo e escarlata, irregular, entretanto, pelos troncos caídos, porém plana e de fácil caminhada.
Sempre atento aos seus passos e utilizando a lança como cajado para evitar cair em um buraco e abrir caminho em meio às intricadas teias de aranha, Yan passou a se alimentar de Gusus, vermes carnosos comedores de madeira podre que aventurou-se a degustar depois de observar vários pica-paus ferindo os troncos do chão. Bebeu água espremendo os musgos do chão, sorvendo gotículas de sereno, típicos da floresta, tendo sempre de improvisar uma rede suspensa no alto dos pinheiros, ao cair da tarde, para pernoitar pois passara algumas noites sendo perseguido por um animal irreconhecível em meio à escuridão e que era munido de fortes presas pois o mesmo conseguiu dar uma forte mordida na perna de Yan, que o deixou mancando por dois dias seguidos. Talvez fosse um Javali perdido de sua manada.
Sentia-se seguro no alto das árvores, pois tinha certeza de que todo tipo de animal feroz zanzava pela floresta à noite, pois era a madrugada inteira infernizado por mais diversos sons de animais correndo e grunhidos de agonia ao servirem de alimento na cadeia alimentar, ciclo natural da vida e da morte, e ele definitivamente não poderia ser mais uma vítima.
Região montanhosa na qual se encontrava, obedecer à ordem do anjo não foi nem um pouco fácil. De repente paredões de rochas estéreis e calcáreas se lhe deparavam, como que inescaláveis, os quais, ainda que tivessem protuberâncias e reentrâncias para nelas se apoiar na escalada, constantemente as rochas se desprendiam, fazendo-o escorregar alguns metros abaixo, ralando-o, ferindo-o e deixando-o constantemente temeroso da morte, sob o risco de iniciar uma derrocada fatal.
Por experiência própria, a cada paredão rochoso que Yan escalava, ele concluía que sobre ele estava a mão de Deus pois constantemente sobrevivia por milagres e alcançar o cume de cada monte era sempre comemorado com gritos de vitória e aleluia, sendo imediatamente recompensado com a visão de belíssimas paisagens, montes, vales e aves de rapina com seus ninhos recheados de ovos que mesmo sem fogo era fonte de nutrientes para sua subsistência e penas para o revestimento do que sobrou de suas roupas, o que o ajudava a resistir ao frio.
A cada riacho que se achegava ao descer os desfiladeiros rochosos, Yan se questionava dizendo em voz alta:
- Anjo do Senhor, diga-me que agora neste rio eu vou encontrar a carpa dourada que o senhor me disse, pois eu não aguento mais escalar montanhas neste labirinto, pelo amor de Deus, tenha misericórdia de mim e de meus irmãos.
Até que chegou o dia que Yan, já desgastado de tanto escalar montanhas suicidas, sentou-se na beira daquele que ele jurou ser o último riacho e amargamente chorou, perdendo a esperança de receber novas instruções, perdendo a fé no sonho, no anjo, na vida e até no Deus que criara os céus e a terra. Já não havia mais nele alegria e talvez já não houvesse força nem coragem e já desistindo de tentar, com fome e revoltado com sua estúpida ideia de acreditar no sonho e ter se lançado à se ferrar, decidiu pescar, comer e esperar a morte.
Montou outra balsa, agora já irritado e tentando conter os sentimentos de angústia, ira, raiva e revolta tomarem conta do seu coração, mas se sentindo culpado por estar ainda mais perdido do que já estava, concluiu a balsa, adentrou o rio e pensou: “Ainda tenho que ter a paciência de esperar um peixe aparecer”.
Sentado na balsa, iluminado pelos tímidos raios de sol, como se o sol perdera o seu resplendor, poder, calor e força, esperou pacientemente aparecer o primeiro peixe para já com um certeiro golpe conquistá-lo e já comê-lo com cabeça, barbatanas, escamas, rabo, espinhos e tudo o mais, tamanha injúria que se apoderou dele.
Quando, sem mais nem menos, a água começou a se agitar à determinada distância, despertando a atenção de Yan e fazendo-o observar atentamente o próximo agitar das águas para tentar cogitar o nadar do peixe e se porventura teria a sorte de fisga-lo. E sobrestado por momentos de ansiedade, um peixe qualquer mexia as águas aqui e ali, descompromissadamente, veio se aproximando da balsa, alimentando a esperança de Yan se alimentar.
A expectativa era grande e ele estava com o arco entesado para desferir o golpe. Quando um belíssimo e enorme peixe dourado emergiu das águas e olharam-se um ao outro de uma forma profunda e arrebatadora, de modo que Yan se esqueceu da revelação do anjo e, ao intentar atingi-lo, a carpa dourada virou-se para fugir, não sem antes exibir um caudaloso rabo azul turquesa e bateu-o na água de forma que ela respingou no rosto de Yan que, piscando os olhos por instinto, lembrou-se do sonho com o anjo e gritou, comemorando:
- Aêeee! Yuhullll! Acheeeei! Achei a carpa dourada! A carpa dourada de rabo azul! Finalmente, ela existe! Aleluias! Glórias a Deus! Yuhulll!
Retornou Yan para a margem do riacho totalmente motivado e feliz, remando sua balsa com tamanha empolgação que assemelhou-se a um surfista indo dropar uma incrível e perfeita onda do mar.
Abandonando sua recente balsa, olhava para a frente, o mais longe que poderia ver, para ir calculando os obstáculos que o obstariam para já passar passando e ir frenético ao encontro da nascente do riacho.
Não se deu conta de quantos dias ou noites seguiu à margem do rio. Yan estava com uma fé inabalável, ao ponto de nem fome nem sede sentir.
O riacho foi se estreitando paulatinamente, tornando-se misteriosamente aquecido, o que transparecia pelos vapores que subiam condensando, mas nem o desejo de tomar um banho quente deteve Yan de alcançar a sua nascente.
Adentrou-se em uma mata, seguindo o rastro do filete de água quando, no meio da vegetação, surgiu aos seus olhos uma imensa árvore de ouro puro.
Embasbacado pela inacreditável visão, Yan perdeu-se em seus pensamentos que, sinceramente, silenciaram-se. Aproximou-se lentamente, observando com atenção aos detalhes dos troncos e galhos da árvore, procurando adivinhar se havia sido entalhada pelos homens ou pelos deuses.
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