#ENTRE2_NUDEZ — A nudez: despojar-se para recomeçar


Análise do despimento simbólico na obra de Pedrim Pescador


---


Resumo


Este artigo analisa a passagem do segundo capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan", de Pedrim Pescador, em que Yan, após emergir do rio, despe-se completamente e estende suas roupas para secar. Investiga-se o significado profundo deste ato de nudez como símbolo de despojamento, recomeço, vulnerabilidade e autenticidade. A análise dialoga com tradições filosóficas, espirituais e literárias que associam a nudez à verdade essencial do ser humano, despido de artifícios e máscaras sociais.


Palavras-chave: nudez; despojamento; recomeço; vulnerabilidade; autenticidade; Pedrim Pescador.


---


1. Introdução


No segundo capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso", após a queda nas águas geladas e a luta contra a hipotermia, Yan chega à margem do rio. O texto descreve seu ato seguinte com simplicidade e precisão:


"Já na beira do rio, olhou para cima e já não havia rastro algum da caravana pois a vegetação impedia de ver acima.


Despindo-se totalmente de suas roupas e as estendendo-as para secar sobre a margem de pedras de seixo, apalpou todo o seu corpo em busca dos ferimentos adquiridos, espinhos encravados e possíveis ossos quebrados. Tendo verificado estar tudo bem consigo apesar dos arranhões e ainda tremendo de adrenalina e medo, pôs uma das mãos na cabeça não acreditando na loucura que fez e levantou um clamor ao Deus Altíssimo para que os cavaleiros não retaliassem seus irmãos."


Este momento de nudez é brevíssimo na narrativa, mas carrega um peso simbólico imenso. Yan está nu — não apenas fisicamente, mas existencialmente. Despido de tudo: família, casa, identidade, roupas, segurança. Resta apenas ele mesmo.


Este artigo investiga o significado profundo deste despimento, suas raízes em tradições espirituais e filosóficas, e sua função como marco zero da jornada de transformação de Yan.


---


2. A nudez como estado original


Em inúmeras tradições, a nudez representa o estado original do ser humano. No Gênesis, Adão e Eva estão nus no jardim e não se envergonham — é a condição de inocência anterior à queda. A nudez é a verdade sem máscara, a identidade sem artifícios.


Yan, ao despir-se, retorna a esse estado original. As roupas que vestia eram as do cativeiro, as mesmas em que o sangue dos pais secou e grudou. Eram roupas de sofrimento, de passado, de identidade imposta. Ao tirá-las, ele se despe também do que elas representavam.


Fica nu como veio ao mundo. E, como veio ao mundo, precisa recomeçar.


---


3. O despojamento necessário


Para seguir em frente, Yan precisa deixar algo para trás. As roupas estão ensopadas, sujas, talvez irremediavelmente marcadas. Mas mais que isso: elas pertencem ao mundo de cima, ao mundo da estrada, dos bandidos, do cativeiro.


Ao estendê-las para secar, Yan não as abandona imediatamente — ele ainda precisará delas. Mas, naquele momento de nudez, ele experimenta a liberdade de não ser definido por elas. Por alguns instantes, é apenas um corpo, uma alma, uma vontade.


O filósofo Henry David Thoreau, em "Walden", fala da importância de despojar-se do supérfluo para encontrar o essencial. Yan vive isso literalmente: sem nada, ele apalpa o próprio corpo para verificar ferimentos. Toma consciência de si mesmo não através de objetos, mas através da sensação direta.


---


4. A vulnerabilidade como força


A nudez é, antes de tudo, vulnerabilidade. Yan está exposto — ao frio, aos mosquitos, a qualquer animal que apareça. Não tem armas, não tem abrigo, não tem proteção.


E, no entanto, é nessa vulnerabilidade que ele encontra sua força. Porque, despojado de tudo, descobre que ainda está vivo. Descobre que seu corpo resistiu. Descobre que sua mente continua funcionando.


Há uma coragem específica em estar nu e não se encolher. Yan não se esconde atrás de folhas; ele se move, apalpa-se, verifica ferimentos, planeja. A vulnerabilidade não o paralisa; ao contrário, torna-o mais atento.


---


5. O autoexame


O texto diz que Yan "apalpou todo o seu corpo em busca dos ferimentos adquiridos, espinhos encravados e possíveis ossos quebrados".


Este autoexame é um momento de consciência corporal profunda. Yan precisa saber como está seu corpo para poder seguir. Precisa localizar a dor, identificar os danos, distinguir entre o que é grave e o que é superficial.


É também uma metáfora da jornada interior: para recomeçar, é preciso examinar-se honestamente. Ver onde estamos feridos, o que precisa ser curado, o que ainda dói. Não adianta seguir em frente ignorando as lesões.


Yan não encontra ossos quebrados. Apesar dos arranhões, está inteiro. Esta descoberta é seu primeiro momento de alívio: ele sobreviveu, e está relativamente bem.


---


6. O clamor pelos irmãos


Interessantemente, no momento de nudez e vulnerabilidade máxima, Yan não ora por si mesmo. Ele "levantou um clamor ao Deus Altíssimo para que os cavaleiros não retaliassem seus irmãos".


Sua preocupação imediata não é com sua própria sobrevivência, mas com os que ficaram. Mesmo nu, mesmo tremendo, mesmo sem saber se vai viver até o dia seguinte, seu pensamento está nos irmãos.


Esta é a marca do verdadeiro líder: a capacidade de pensar nos outros mesmo quando se está em situação extrema. A nudez expõe o corpo, mas também expõe a alma — e a alma de Yan está voltada para os irmãos.


---


7. O que esta peça ensina sobre recomeços


A nudez de Yan oferece lições profundas sobre a arte de recomeçar:


Primeiro, recomeçar exige despojar-se. Não se pode levar tudo. Algumas coisas precisam ficar para trás — inclusive roupas, inclusive identidades, inclusive passados.


Segundo, a vulnerabilidade é o ponto de partida. Quem recomeça está nu, exposto, frágil. Não adianta fingir força quando se acabou de cair de um precipício.


Terceiro, o autoexame é necessário. Antes de seguir, é preciso verificar ferimentos, localizar danos, saber o que dói.


Quarto, a preocupação com os outros não desaparece na adversidade. Yan prova que mesmo em situação extrema podemos lembrar de quem amamos.


Quinto, a nudez é temporária. Yan veste as roupas de novo quando secam. Mas algo mudou: ele agora sabe que pode viver sem elas.


---


8. Conexões com o restante da obra


A nudez de Yan dialoga com outros momentos de despojamento ao longo da narrativa:


· As vestes de penas que Yan constrói mais tarde são uma nova "roupagem", criada por ele mesmo a partir de sua jornada. Ele não veste mais as roupas antigas; cria as próprias.

· A entrada em Niree com vestes emplumadas e rasgadas mostra que Yan ainda carrega as marcas da jornada, mas já não é o mesmo que caiu no rio.

· O banho de Yasmin e as roupas limpas que Frish lhe oferece são um novo despojamento: Yan deixa as penas e veste o pijama do velho, experimentando pela primeira vez o conforto e a hospitalidade.

· O casamento é o despojamento final da solidão: Yan se une a Yasmin, e sua identidade agora é também compartilhada.


---


9. O que esta peça forma no leitor


A nudez de Yan é uma peça formativa de rara potência.


Forma no leitor a coragem de se despir das máscaras sociais e enfrentar a própria verdade.


Forma a compreensão de que recomeços exigem desapego. Não se leva tudo.


Forma a aceitação da vulnerabilidade como condição humana, não como fraqueza.


Forma a importância do autoexame honesto antes de seguir em frente.


Forma a certeza de que, mesmo nus, podemos lembrar de quem amamos.


---


10. Considerações finais


Yan, à beira do rio, nu e tremendo, é a imagem mais pura do ser humano diante do destino. Não tem nada. Não é nada. Apenas existe.


E é exatamente essa existência nua que será o ponto de partida de tudo. A partir daí, ele construirá armas, fará fogo, seguirá o rio, encontrará o anjo, receberá as maçãs, resgatará os irmãos, casará com Yasmin.


Tudo começa na nudez. Tudo começa no despojamento. Tudo começa quando Yan tira as roupas ensanguentadas e as estende para secar.


Pedrim Pescador, ao incluir este momento, nos lembra que os maiores heróis não são os que nunca caem, mas os que, caídos e nus, encontram forças para se levantar e seguir.


Yan se levantou. Seguiu. E nós, leitores, seguimos com ele.


---


Referências


· BÍBLIA. Gênesis, capítulos 2-3.

· THOREAU, Henry David. Walden. São Paulo: Penguin Classics, 2012.

· PESCADOR, Pedrim. O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan. Vila Velha: edição do autor, 2024.

· ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.


---


Sobre o autor: Pedro Henrique Serrano Léllis, autor do livro em colaboração humano-IA, é biólogo (UVV/ES, 2022) e escritor capixaba. Sua obra inaugural, escrita durante período de internação e distribuída gratuitamente, reflete sua formação científica, sua fé e seu compromisso com causas sociais, especialmente a defesa de órfãos e vulneráveis.