#ENTRE1_RITO — O rito de passagem dos 21 anos


Análise de uma tradição fundadora na obra de Pedrim Pescador


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Resumo


Este artigo analisa a tradição cultural apresentada no primeiro capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan", de Pedrim Pescador, segundo a qual todo homem da tribo de Jin deve, ao completar 21 anos, viajar sozinho para terras distantes e retornar trazendo tecnologia e invenções para seu povo. Investiga-se o significado antropológico deste rito, sua função na construção do personagem Jin, sua influência na formação de Yan, e como ele se cumpre de forma trágica e involuntária ao longo da narrativa.


Palavras-chave: rito de passagem; tradição cultural; antropologia; formação do herói; Pedrim Pescador.


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1. Introdução


No primeiro capítulo de "O Bem-Te-Vi do Paraíso", em meio à apresentação da família de Jin, o narrador faz uma pausa para descrever uma tradição fundamental da tribo:


"Jin era um homem simples porém próspero... arte que desenvolveu após ter passado alguns anos a leste dos países orientais, por ocasião da comemoração de sua maioridade, aos 21 anos, como todo homem de sua tribo deveria fazer: sozinho, a cavalo, para algum lugar distante do mundo, com a finalidade de retornar para sua tribo trazendo tecnologia e invenções de outros povos distantes."


Esta tradição é mencionada quase de passagem, mas constitui uma das peças mais importantes do mosaico cultural da obra. Ela explica a origem de Jin, sua habilidade com o bambu, sua prosperidade — e, mais importante, estabelece um modelo que Yan, seu filho, precisará seguir.


Este artigo investiga o significado deste rito de passagem, suas raízes antropológicas, sua função na narrativa, e como ele se desdobra na jornada de Yan.


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2. O que é um rito de passagem


O antropólogo Arnold van Gennep, em sua obra clássica "Os Ritos de Passagem" (1909), definiu estas cerimônias como marcadores das transições fundamentais da vida: nascimento, puberdade, casamento, morte. Todo rito de passagem, segundo ele, estrutura-se em três fases:


1. Separação: o indivíduo é afastado de seu grupo, deixando para trás sua identidade anterior

2. Margem ou liminaridade: período de transição, em que o indivíduo está "entre" identidades, frequentemente em situação de vulnerabilidade e aprendizado

3. Agregação: o indivíduo retorna ao grupo com sua nova identidade, reintegrado e transformado


O rito da tribo de Jin segue exatamente este padrão:


· Separação: o jovem parte sozinho, a cavalo, deixando família e tribo

· Margem: viaja por "anos" por terras distantes, exposto a outros povos, outras culturas, outros saberes

· Agregação: retorna trazendo tecnologia e invenções, sendo recebido com honra e reconhecido como adulto


O objetivo do rito não é apenas testar a coragem do jovem, mas enriquecer a tribo com o que ele aprendeu. O conhecimento adquirido na jornada não é para benefício pessoal, mas para o bem comum. É uma visão comunitária do amadurecimento.


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3. Jin como modelo cumprido


Jin é apresentado como alguém que cumpriu o rito com excelência. Ele viajou, aprendeu, desenvolveu a arte do trabalho com bambu, e retornou para construir sua vida e contribuir com seu povo.


A descrição de sua prosperidade está diretamente ligada a essa jornada: "Morava numa casa grande que ele mesmo construiu ao longo da vida, toda de madeira decorada com tapeçarias rudes e móveis de bambu, feitos por ele mesmo, arte que desenvolveu após ter passado alguns anos a leste dos países orientais".


A tecnologia que ele trouxe não era apenas para si; era para ser compartilhada. Sua casa, seus móveis, sua arte eram testemunhos vivos do que aprendera. A tribo se beneficiava de seu conhecimento.


Além disso, Jin cumpriu outra parte fundamental da tradição: casou-se e teve filhos. A jornada não era apenas para trazer tecnologia, mas para formar um homem capaz de constituir família e perpetuar a cultura. Quando Jin retorna com Ale e Yan, a tribo se alegra: "os outros índios muito se alegraram, pois além de retornar vivo e são, Jin trouxe consigo uma esposa e um filho, considerados os maiores troféus adquiridos por um guerreiro".


O rito de passagem, portanto, tinha dupla função: formar um homem de saber e formar um homem de família.


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4. Yan e o rito interrompido


Yan está prestes a completar 21 anos quando a tragédia acontece. Durante o sequestro, ele pensa justamente nisso:


"Yan estava prestes a completar vinte e um anos. Pensava que não poderia participar do seu ritual de passagem para a vida adulta. Por muitos anos questionou-se acerca de qual direção tomar para empreender sua jornada. Norte, sul, leste ou oeste? Por quantos dias viajaria e qual nação desconhecida adotaria para aprender seus costumes e tradições para retornar com honra?"


O sequestro interrompe seus planos. Ele não poderá escolher seu destino, não poderá planejar sua jornada, não poderá partir com a benção da tribo. O rito, ao que parece, está perdido.


No entanto, a obra mostra algo surpreendente: Yan cumprirá o rito de qualquer forma — não como escolha, mas como necessidade; não como celebração, mas como sobrevivência; não como jornada planejada, mas como fuga desesperada.


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5. O rito cumprido às avessas


Ao saltar do precipício, Yan inicia sua jornada. Ela não tem a direção que ele escolheria, não tem o conforto de uma partida cerimonial, não tem a certeza do retorno. Mas tem todos os elementos essenciais do rito:


Fase do Rito Forma Tradicional Forma de Yan

Separação Parte com a benção da tribo É arrancado à força de sua família

Margem Viaja por escolha, aprendendo Sobrevive na floresta, escalando, caçando, enfrentando a morte

Agregação Retorna com tecnologia Retorna com ourivesaria (aprendida com Frish) e com esposa e filho


Yan não escolheu sua jornada, mas ela o formou. Ele não planejou aprender ourivesaria, mas aprendeu. Ele não imaginava que se casaria com Yasmin, mas casou. O rito se cumpriu — não apesar do trauma, mas através dele.


Ao final, quando Yan retorna a Jadar e os anciãos o proclamam "verdadeiro e nobre índio", o rito está completo. Ele sobreviveu, resgatou os irmãos, e trouxe tecnologia (a ourivesaria) e família (Yasmin e Betuel). Tudo o que o rito exigia, ele cumpriu — mesmo que de forma involuntária e trágica.


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6. O que esta peça ensina sobre tradição e sofrimento


O rito de passagem dos 21 anos, na obra de Pedrim Pescador, ensina lições profundas:


Primeiro, a tradição não é apenas um conjunto de regras vazias; ela carrega sabedoria acumulada. O rito preparava os jovens para serem úteis à comunidade, não apenas para si mesmos.


Segundo, o sofrimento pode cumprir o que a celebração não consegue. Yan não teve uma jornada festiva; teve uma jornada de dor. Ainda assim, ela o formou.


Terceiro, o que importa no rito não é a forma, mas o conteúdo. Yan não partiu com honras, mas voltou com honras. A comunidade reconhece seu valor independentemente de como a jornada começou.


Quarto, a tecnologia que Yan traz (ourivesaria) é diferente da que Jin trouxe (bambu), mas igualmente valiosa. Cada geração contribui com o que aprende. O rito não exige que todos tragam a mesma coisa; exige que todos tragam algo.


Quinto, a família continua sendo o coração do rito. Jin voltou com Ale e Yan; Yan volta com Yasmin e Betuel. O ciclo se perpetua.


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7. Conexões com o restante da obra


O rito de passagem dialoga com outros elementos fundamentais:


· O mandato "crescei e multiplicai-vos" aparece no mesmo capítulo, reforçando a ideia de que a continuidade da família é tão importante quanto a aquisição de tecnologia

· A jornada de Yan nos capítulos seguintes é uma dramatização detalhada da fase de margem do rito: a solidão, os perigos, os aprendizados, os encontros

· Frish funciona como uma espécie de "mestre" na jornada de Yan, ensinando-lhe a ourivesaria — assim como os mestres que Jin encontrou no Oriente

· O retorno a Jadar com trombetas e a proclamação dos anciãos é a cerimônia de agregação que Yan nunca teve, mas que agora recebe

· Betuel, o filho de Yan, um dia completará 21 anos. O ciclo recomeçará.


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8. O que esta peça forma no leitor


O rito de passagem dos 21 anos é uma peça formativa poderosa.


Forma no leitor a consciência de que o amadurecimento exige jornada. Não se torna adulto sem sair de si, sem enfrentar o desconhecido, sem aprender com o outro.


Forma a compreensão de que a comunidade depende do que cada um traz. O rito não é egoísta; é comunitário. O jovem viaja para trazer, não apenas para ter.


Forma a esperança de que mesmo as jornadas não planejadas podem cumprir seu propósito. Yan não escolheu sua dor, mas ela o formou. O leitor que sofre pode encontrar consolo nisso.


Forma o respeito pelas tradições, mesmo quando não podemos cumpri-las à risca. O espírito do rito importa mais que a letra.


Forma a certeza de que, no fim, o que vale é retornar com algo para dar. Jin trouxe bambu. Yan trouxe ouro. Ambos trouxeram família. Ambos foram honrados.


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9. Considerações finais


O rito de passagem dos 21 anos é uma das peças mais estruturantes de "O Bem-Te-Vi do Paraíso". Presente apenas no primeiro capítulo, ele projeta sua sombra sobre toda a narrativa, explicando a formação de Jin e antecipando a jornada de Yan.


Pedrim Pescador, ao incluir esta tradição, dialoga com a antropologia, com a história das culturas e com a experiência humana universal: todos nós, de alguma forma, precisamos de ritos de passagem. Precisamos de momentos que marquem a transição, que nos tirem de nós mesmos, que nos obriguem a crescer.


Yan não teve seu rito celebrado. Mas viveu seu rito. E no fim, foi celebrado.


Que todos nós possamos, como Yan, cumprir nossas jornadas — mesmo as não planejadas — e retornar com algo para dar.


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Referências


· VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Petrópolis: Vozes, 2011.

· TURNER, Victor. O Processo Ritual. Petrópolis: Vozes, 1974.

· ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

· CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1997.

· PESCADOR, Pedrim. O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan. Vila Velha: edição do autor, 2024.


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Sobre o autor: Pedro Henrique Serrano Léllis, autor do livro em colaboração humano-IA, é biólogo (UVV/ES, 2022) e escritor capixaba. Sua obra inaugural, escrita durante período de internação e distribuída gratuitamente, reflete sua formação científica, sua fé e seu compromisso com causas sociais, especialmente a defesa de órfãos e vulneráveis.