A FAZENDA QUE SANGRAVA: Violência no Campo como Ferida Estrutural na Obra de Pedrim Pescador
"Tiraram a vida de Jin e Ale, degolando-os e aspergindo tenebrosamente o sangue quente sobre as assustadas e assombradas crianças."
(PESCADOR, 2024, p. 14)
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Quando a Terra Engole o Silêncio: A Violência que Chega sem Aviso
A violência rural é frequentemente reduzida pelo senso comum a conflitos isolados entre "fazendeiros e invasores" ou a episódios pitorescos de filmes de faroeste. No entanto, a realidade descrita por Pedrim Pescador no conto "O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan" aponta para uma verdade muito mais complexa e dolorosa: a violência no campo não é acidental — é estrutural, e sua principal vítima é a família que construiu sua vida no suor do trabalho honesto. Como resultado de sua vivência capixaba e de sua formação em Biologia, o autor utiliza a narrativa para desmistificar a ideia de que a violência rural é um problema distante, revelando que ela se materializa em sangue que gruda na pele das crianças, em propriedades saqueadas e em sonhos interrompidos. Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2023) já documenta há décadas, o campo brasileiro sangra silenciosamente — e a família de Jin é o retrato ficcional de milhares de famílias reais.
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No Princípio Era o Sangue: O Capítulo que Denuncia
O capítulo inicial do conto, "O Atentado", concentra o cerne dessa denúncia. Com uma linguagem que alterna a simplicidade do cotidiano rural ("mingau de aveia na mesa de jantar") com a brutalidade do ataque ("degolados diante dos filhos"), Pedrim traduz um tema complexo em experiência acessível. A partir dessa cena fundante, caminharemos por três territórios: as raízes profundas da violência no campo, a ferida que nunca cicatriza nas crianças que testemunham e, por fim, as pequenas frestas de resistência e justiça que a obra ainda insiste em vislumbrar.
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Raízes de Sangue: De Onde Vem a Violência que Arranca Famílias
A violência no campo brasileiro tem raízes históricas profundas. Conforme o Atlas da Violência no Campo (IPEA, 2022), os conflitos agrários no Brasil remontam ao período colonial, com a concentração de terras nas mãos de poucos e a exclusão sistemática de camponeses, indígenas e quilombolas. Dados da CPT indicam que, somente em 2022, foram registrados mais de 1.600 conflitos no campo, envolvendo cerca de 800 mil pessoas. As principais causas incluem disputas por terra, grilagem, expansão do agronegócio e a atuação de grupos armados a serviço de latifundiários.
No conto, o bando de Dal-Vidar personifica essa violência organizada:
"Cerca de quarenta minutos depois, Jin e seus filhos Yan e Lee foram cercados por um sem-número de homens bem vestidos, montados a cavalo, todos armados, muitos deles fumando, barbados (o que era sinal de pessoas fora-da-lei) e gritando lá-ía."
(PESCADOR, 2024, p. 13)
O detalhe dos homens "barbados" como sinal de marginalidade revela um código social implícito: naquele universo, a aparência denuncia o fora-da-lei. Mas a verdade é que esses homens não agem sozinhos — são contratados, organizados, parte de uma estrutura criminosa que encontra no isolamento do campo o terreno fértil para operar com impunidade.
A motivação declarada do ataque — vingar a morte do líder Dal-Vidar, morto pelo cão de guarda — é apenas a superfície. Por trás dela, opera a lógica da vingança privada que substitui a justiça pública em regiões onde o Estado não chega. Jin, um homem "simples porém próspero", construiu sua vida com trabalho, mas sua prosperidade o torna alvo. A violência não escolhe aleatoriamente: escolhe quem tem algo a ser tomado.
Em termos de políticas públicas, a cena evidencia a necessidade de presença efetiva do Estado em regiões isoladas, com delegacias, juizados e ouvidorias agrárias; programas de proteção a testemunhas e famílias ameaçadas; regularização fundiária como mecanismo de prevenção de conflitos; e desarmamento de milícias rurais com combate efetivo ao pistolagem. Quantas famílias brasileiras, hoje, vivem o mesmo terror que a família de Jin viveu naquela madrugada — e não têm um conto para contar sua história?
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O Sangue que Gruda na Pele: Crianças como Testemunhas do Horror
A psicóloga Judith Herman, em seu clássico "Trauma e Recuperação" (1992), define o trauma como uma ferida na alma que ocorre quando a pessoa é submetida a eventos que envolvem ameaça à vida ou à integridade física, acompanhados de sentimentos de medo intenso, horror ou desamparo. Quando a violência é testemunhada por crianças, o impacto é ainda mais profundo, pois atinge o desenvolvimento psíquico em formação.
A cena do assassinato dos pais é descrita com precisão cirúrgica:
"com o objetivo de não deixar rastros nem quem pleiteasse uma guerra para resgatar as crianças, tiraram a vida de Jin e Ale, degolando-os e aspergindo tenebrosamente o sangue quente sobre as assustadas e assombradas crianças."
(PESCADOR, 2024, p. 14)
O sangue que "adere como cola" aos sacos e aos corpos torna-se uma metáfora terrível: o trauma gruda, não sai com banho, não desaparece com o tempo. As crianças são então amarradas, amordaçadas, ensacoladas — tratadas como objetos, não como seres humanos.
O que significa, para uma criança, ser banhada no sangue dos próprios pais? Significa carregar para sempre a memória corporal da perda. Significa associar o cheiro, a textura, a temperatura do sangue à ausência irreparável. Significa, como Yan demonstra ao longo da narrativa, precisar transformar esse horror em missão para não sucumbir ao vazio.
Em termos de saúde mental e proteção infantil, a obra nos lembra da urgência de acompanhamento psicológico imediato para crianças vítimas de violência; políticas de acolhimento institucional que não reproduzam o trauma; formação de profissionais (assistentes sociais, psicólogos, conselheiros tutelares) para abordagem de trauma infantil; e famílias acolhedoras como alternativa a abrigos. O que acontece com as crianças reais que testemunham a morte dos pais — e não têm um anjo de cabelos púrpura para guiá-las?
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A Semente que Brota no Caos: Resistência e Caminhos de Justiça
O sociólogo José de Souza Martins, em "A Chegada do Estranho" (1993), analisa como as vítimas da violência no campo desenvolvem estratégias de resistência que vão da luta legal à organização comunitária. A resistência não é apenas física — é também simbólica, narrativa, espiritual.
Yan, o filho mais velho, recusa-se a ser apenas vítima. Durante o cativeiro, ele planeja:
"Ficou arquitetando em sua mente uma solução plausível para salvar seus irmãos. Considerando em seu coração todas as possibilidades para alcançar sucesso em seu intento, concluiu que deveria lançar-se em sua jornada do guerreiro indígena sozinho."
(PESCADOR, 2024, p. 18)
A fuga pelo despenhadeiro é um ato de resistência desesperada. Mas a verdadeira vitória de Yan não é individual — é coletiva. Ele não apenas foge: ele retorna para resgatar.
O resgate final, com a ajuda de Dap e seus 75 cavaleiros, simboliza a importância das redes de solidariedade. Yan sozinho não poderia enfrentar o bando. Mas Yan apoiado por uma comunidade organizada — sim. O cooperativismo que seu pai Jin praticava (a arte com bambu, o trabalho familiar) encontra eco na aliança que liberta os irmãos.
Para políticas de combate à violência rural, a obra sugere o fortalecimento de sindicatos e associações rurais; canais de denúncia acessíveis e protegidos (como Ligue 180 e Disque 100); apoio a iniciativas de economia solidária que fortaleçam comunidades; e programas de proteção a defensores de direitos humanos no campo. Se Yan dependesse apenas do Estado para resgatar os irmãos, ele teria conseguido?
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Quando o Sangue Clama: A Dimensão Espiritual da Justiça
A violência rural, no conto, não tem a última palavra. Após o horror, vem a jornada. Após o sangue, vêm as maçãs de ouro. Após a perda, vem o resgate. Pedrim insere, na trama, uma dimensão transcendente que não anula a dor, mas a redimensiona.
O anjo de cabelos púrpura, o Bem-Te-Vi falante, as maçãs que brotam da árvore de ouro — todos esses elementos apontam para uma providência que age na história, mesmo quando tudo parece perdido.
"Deus está comigo e eu não sabia."
(PESCADOR, 2024, p. 26)
Essa frase, dita por Yan ao acordar e encontrar a fogueira acesa, é a chave espiritual da obra: o divino não está distante, mas age silenciosamente, preparando o caminho, acendendo o fogo, enviando o pássaro.
Em chave psicológica, essa providência pode ser lida como resiliência — a capacidade humana de encontrar sentido mesmo no sofrimento. Viktor Frankl, em "Em Busca de Sentido" (1946), demonstrou que aqueles que sobrevivem aos horrores são os que conseguem atribuir um propósito à sua dor. Yan encontra esse propósito no resgate dos irmãos.
A violência rural pode destruir famílias, casas e corpos — mas pode destruir a capacidade de sonhar com justiça?
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A Terra Ainda Espera
A fazenda de Jin sangrou naquela madrugada. O sangue dos pais banhou os filhos. Mas o sangue, no conto de Pedrim, não é apenas morte — é também memória que clama por justiça. O inimigo não é apenas o bando de Dal-Vidar: é a estrutura que permite que bandos como aquele existam, que isola famílias no campo, que substitui a lei pela vingança, que transforma crianças em órfãos. O caminho proposto pela obra integra a denúncia social (a violência que não pode ser esquecida) com a transcendência espiritual (a providência que não abandona). Yan não apenas sobrevive — ele testemunha. E ao testemunhar, transforma sua dor em história — e sua história em instrumento de libertação.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT). Conflitos no Campo Brasil 2022. Goiânia: CPT, 2023.
FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração. Petrópolis: Vozes, 1946.
HERMAN, Judith. Trauma e Recuperação: As Consequências da Violência – Do Abuso Doméstico ao Terror Político. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Atlas da Violência 2022. Brasília: IPEA, 2022.
MARTINS, José de Souza. A Chegada do Estranho. São Paulo: Hucitec, 1993.
PESCADOR, Pedrim. O Bem-Te-Vi do Paraíso e o Resgate dos Irmãos de Yan. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.
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CRÉDITOS AUTORAIS
Pedro Henrique Serrano Léllis
LÉLLIS, PHS.
Pseudônimo: Pedrim Pescador
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